O BOTAFOGO ME LEMBROU O POETA

Há certas coisas na nossa vida que se impõem por si mesmas, a despeito, às vezes, de nossa vontade em contrário.

O grande Carlos Drummond de Andrade, em seu poema inaugural de Alguma poesia, o Poema de sete faces*, mostra muito bem isso, na última de suas “faces”:

“Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”

Por isso é que sou obrigado a voltar ao meu Botafogo e a sua brilhante estreia de Seedorf, ontem no Engenhão.

Ah, dirão vocês que Seedorf não estreou! Apenas foi apresentado festivamente à torcida e foi-se sentar à tribuna para, de lá, assistir ao jogo. Não teve assim a participação direta, não meteu o pé na bola, não suou a camisa.

Mas para quem é Seedorf, com perdão de outros que por aí correm atrás da redonda, bastou sua presença, para que o time mostrasse outro ânimo, outra disposição.

E o grupo parece que jogou para mostrar ao craque holandês o que ele pode esperar de seus futuros colegas de profissão.

E jogaram de tal modo bem que até Cidinho – a que meu amigo Zatonio Lahud, botafoguense equilibrado que só ele, em seu blog Interrogações, já apelidou de Ciidiorf –, com sua estatura de anão de jardim, fez gol de cabeça. E, a seguir, com a sorte dos predestinados, chutou ao gol uma bola que se desviou na cacunda do defensor adversário e foi morrer no fundo das redes, deixando o goleiro sem pai nem mãe.

Vítor Júnior, embora não tenha feito gol nenhum, mostrou uma disposição impressionante. Em certo lance, correu de uma distância de mais de vinte metros, para recuperar a bola que chegava de mansinho aos pés de outro zagueiro, apenas a uns cinco metros da redonda. Ele parecia possuído.

Renato abriu seu arsenal de passes certos, de chapéus, de toques de classe. Até mesmo nossa defesa, tão propícia a facilitar as coisas para os adversários, obrou bem. Márcio Azevedo tem jogado bem, mas ontem teve até suas escapadas ao ataque com a cobertura bem feita em seu setor.

Elkeson, por exemplo, fez um golaço, como há muito não fazia. Ou eu não via. Ou ele mesmo nunca tinha feito. Pode ser que, com a saída de Loco e Herrera, possa readquirir o futebol que o levou à Seleção Brasileira.

Seedorf, a cada gol, sorria e aplaudia e deve ter gostado do que viu. Deve ter pensado: Vou trabalhar com um grupo competente.

Eu não devia dizer para vocês, mas, às vezes, esse Botafogo deixa a gente comovido como o diabo!

Imagem em jocapoeira.wordpress.com.

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*In Reunião – 10 livros de poesia, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1971. p. 3.

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