CORREADAS CRIMINOSAS

Imagem em passarela.com.br.

Ontem à tarde vi reportagem sobre a condenação de um pai que, no intuito de educar sua filha de dez anos, aplicou-lhe algumas correadas no bumbum.

Óbvio que correadas no bumbum deixam marcas, mais ou menos graves, conforme a força aplicada. E não é uma cena bonita de se ver atualmente.

Ele foi condenado, porque sua ex-mulher, que tentava ter a guarda da filha, denunciou-o à polícia. Ela lamentou posteriormente o desfecho tomado pela denúncia.

Agora ele tem de pagar pelo “crime” em serviços comunitários. De pai, virou criminoso.

Eu mesmo já levei correadas do meu pai, quando menino – uma só vez, é bom que se diga –, e várias chineladas da minha mãe, distribuídas durante a vida, conforme aprontasse alguma, normalmente em companhia de meu irmão Guth.

E, naquelas oportunidades, ainda éramos ameaçados por ela:

– Se correrem, em vez de cinco, tomam dez chineladas.

Por meu lado, sabia fazer contas de dores e prazeres e preferia cinquenta por cento de abatimento na dívida e placidamente aguardava ao lado, enquanto mamãe esquentava a bunda do meu irmão, para também ganhar a parte da coça que me cabia.

Só dava um pulinho providencial à frente, a fim de aliviar o impacto da sola do chinelo nessa parte pudenda da minha pessoa. Doía, mas não era lá o sofrimento de Cristo carregando a cruz pela Via Crucis, como mamãe, às vezes, nos fazia ver.

Agora, com a notícia da condenação deste pai, fico pensando em meus pais como possíveis criminosos, pelo mesmo tipo de tratamento que me deram na infância, e acho de uma estupidez sem tamanho a paranoia a que a sociedade atual chegou.

Até a palmada passou a ser proibida por lei.

Criança também não pode trabalhar. Eu trabalhei desde cedo. O que tem de ser proibido é o sofrimento. O que não pode ocorrer é a exploração. Mas, aí, de ninguém e não só de crianças, o que é bem mais grave. Neste aspecto, o governo deve agir de forma dura.

No entanto, como pensar em filho de família pobre que não possa trabalhar antes da maioridade, para ajudar à família ou para se ajudar? Para aprender alguma coisa positiva?

É óbvio que criança não existe para ser saco de pancada de adulto, nem mesmo arriscar sua infância em trabalhos exaustivos, que a impeçam de vivenciar esta época lúdica da vida.

Mas como conciliar a possível necessidade da família com a interdição atual?

O governo proverá com bolsa? Será mais educativo dar dinheiro a uma família pobre do que permitir que um garoto aprenda o valor do trabalho desde cedo? Haverá salvação social fora da educação e do trabalho?

E as famílias que recebem a bolsa e ainda mantêm os filhos em atividades rendosas, como a reportagem de Caco Barcelos mostrou ontem?

Já disse em alguns textos por aí que eu mesmo, filho de família pobre do interior, trabalhei desde a meninice e isto nunca foi impedimento para que estudasse, me divertisse e fosse criança. Claro deve ficar que nunca foi de forma integral. Apenas a partir dos quinze anos é que se deu de forma permanente.

Talvez eu não tenha a medida da complexidade da vida, como ela é olhada hoje em dia por diversos especialistas, e esteja dizendo bobagens. Contudo julgo-me uma pessoa absurdamente normal, sem traumas, sem feridas, que tenham sido gerados pelo que vivi, sofri ou pelo que paguei na infância, por conta das trapalhadas comuns da idade ou pelas limitações econômicas da minha família.

O que este pai, agora condenado, tem de diferente do meu pai?

Taí uma discussão quase sem fim!

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2 comentários em “CORREADAS CRIMINOSAS

  1. Muito boa a crônica. Parabéns ao meu amigo autor.

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