A MATÉRIA DOS HERÓIS

De que são feito os heróis? Quais são os heróis? Mudam os heróis com os tempos? Heróis podem ser covardes?

Todas essas questões vieram-me à mente ao ver, mais uma vez, reportagem do Fantástico sobre aventureiros audaciosos que gastam parte de suas vidas, energias e, naturalmente, recursos financeiros, em desafio às forças naturais, aos limites da capacidade humana.

Já vimos reportagens sobre alpinistas denodados, subindo montanhas em que a existência humana é impossível por períodos maiores que dias, devido ao ar rarefeito, às condições climáticas, dentre outros componentes inóspitos.

Muitos acabam por morrer em escaladas, cujo único objetivo é pôr-se à prova, desafiar a natureza.

O repórter Clayton Conservani voltou àquele programa com reportagens em que se inclui entre tais desafiadores. Passa por situações em que coloca sua vida em risco. Como, aliás, ocorre com todos os que o acompanham em suas aventuras.

Há cerca de dois meses, noticiou-se que um casal de brasileiros morreu em um mergulho em perigosas cavernas submersas na costa do México.

Já assistimos a resgates desesperados de alpinistas em situações extremas.

E eu lhes pergunto: o que há de heroico nisto? A quem serve este tipo de desafio, senão ao próprio e ao seu grupo? Qual a finalidade prática, social, de utilidade pública, de tal empresa? São todos os que se dedicam a isto heróis?

Com exceção dos estudiosos que se aventuram em situações assemelhadas, para entender a vida sobre a Terra, suas implicações, seus desdobramentos, com os possíveis benefícios para a humanidade, o resto é exercício estéril. É mera vaidade pessoal. É satisfazer a egos inchados.

E todo aquele que morre em tal situação é, em princípio, um irresponsável.

Para mim, herói é o cidadão comum que luta diuturnamente para seu sustento e o sustento de sua família, sob as condições mais adversas, geradas por um sistema injusto, que permite que uma minoria acumule riqueza imensa, contra a penúria de milhões.

Esses são os heróis. Heróis feitos da prosaica matéria comum aos seus semelhantes, que não têm de provar para si, nem para os outros, que sejam capazes de desafiar as forças naturais, fincar bandeiras no cimo de montanhas geladas, ou descer de bote inflável as corredeiras de um rio traiçoeiro, cheio de jacarés.

Estes últimos são estúpidos. Aqueles são heróis, e por eles choro, quando perdem a batalha da vida.

 

J. Miguel, Os retirantes (em geografia.seed.pr.gov.br).

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