DUAS OU TRÊS COISAS QUE SEI SOBRE JOÃO SALDANHA

Ficheiro:Joao-saldanha11.jpg

João Saldanha (em pt.wikipedia.org).

Meu amigo Zatonio Lahud começou, como que por brincadeira, uma campanha em seu blog Interrogações para a troca do nome oficial do Engenhão. Alega ele que, por ser o estádio do Glorioso, não pode ter o nome de um tricolor. Além disso, o nome de João Havelange, que nomeia o Engenhão, está mais sujo que pau de galinheiro, que tábua de chiqueiro, que chão de curral, em virtude das últimas notícias vindas da Suíça acerca de corrupção durante sua presidência na FIFA.  Corrupção esta que ele dividiu com seu ex-genro Ricardo Teixeira, também ex-presidente da CBF, posição a que este chegou por influência de Havelange.

Juca Kfouri encampou a campanha e publicou em seu blog a ligação para o abaixo-assinado que Zatonio criou em Petição Pública (este aqui), e aproveitou para sugerir o nome de João Saldanha, para nomear o estádio, por toda a sua história e seus méritos.

Saldanha foi um dos maiores jornalistas esportivos do Brasil. Além disso, era um botafoguense sanguíneo. Foi também técnico do Botafogo e da Seleção Brasileira, na fase classificatória para a Copa de 70 no México, quando se substituiu o antigo apelido de “canarinhos” para “feras do Saldanha”, com que a imprensa nomeava os jogadores.

Polêmico em horário integral, também era comunista de carteirinha, o que muito incomodava, à época, o regime militar que assolava nosso país, do qual era opositor.

Saldanha não tinha papas na língua. Sua coluna diária no Jornal do Brasil, seus comentários nas rádios ou sua atuação à frente do selecionado nacional eram marcados por desassombro.

Para os mais novos, que talvez não saibam disso, repito o entrevero entre ele e o então militar de plantão no Palácio do Planalto, Garrastazu Médici. O general, dado a frequentar estádios de futebol, sugeriu que o técnico convocasse Dadá Maravilha, então centroavante do Atlético Mineiro, para compor a delegação que iria ao México. João retrucou que ele não escalava os ministros do presidente, portanto o presidente não poderia escalar seus jogadores.

João caiu, segundo as más línguas da época por pressão do governo, e em seu lugar foi Zagalo, outro botafoguense, técnico competente, que levou Dadá para dar um passeio em terras de Emiliano Zapata e Sancho Pança. Nunca se ouviu/viu um toque de Dadá na pelota. E voltamos tricampeões mundiais de futebol.

Embora Saldanha tenha sido, a meu juízo, um dos mais competentes analistas de futebol, também cometia as suas gafes. Aliás, comentarista de futebol, analista econômico e previsor do tempo são as três profissões mais ingratas quanto ao exercício de futurologia.

Certa vez, ouvia eu a transmissão de um jogo entre não sei que time e o Botafogo de Ribeirão Preto. João Saldanha era o comentarista. Quando ouviu o nome do jovem jogador Sócrates, vaticinou que ele não iria adiante. Aquele não era um nome de jogador de futebol, ainda mais ao saber seu nome completo: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Para ele, jogador bom tinha nome curto: Pelé, Garrincha, Tostão, Didi. Quando o ouvi, dei uma boa gargalhada e concordei, fã que era do comentarista. Ele queimou a língua. Sócrates se transformou num dos maiores jogadores do Brasil.

Mas diria que minha relação com Saldanha não se resumiu a ler suas crônicas ou ouvir seus comentários. Encontrei-o, por acaso, algumas vezes num pequeno  restaurante próximo ao meu local de trabalho, o Monterey, que já não existe.

Ele era, o que se pode dizer, um cliente bissexto. Aparecia vez ou outra. E chegava sempre bem-humorado, falando com todos e procurando por Manolo, um dos garçons da casa. Numa dessas vezes, em que entrou cumprimentando a todos os que ali estavam, perguntou para Manolo que mesas ele estava servindo, pois queria ser atendido por ele. E disse para que todos ouvissem:

– Gosto de vir aqui, porque é o único restaurante do Rio de Janeiro que tem um garçom português, com apelido espanhol e que é torcedor do Botafogo!

E emendou:

– Traz aquela branquinha boa aí, Manolo!

Seu irmão, Aristides Saldanha, pai da apresentadora de tevê Paula Saldanha, era titular de cartório – eu também o conhecia dos corredores do Fórum – e também almoçava sempre no Monterey.

Há alguns anos, estou no Maracanã com o amigo Zatonio, para mais um jogo do Botafogo. Circulávamos no anel externo das arquibancadas, à procura de trecho com lugares vagos, quando fomos parados por uma equipe de filmagem. O diretor, mirando nosso jeito já entrado em anos, então perguntou se havíamos conhecido Saldanha. À nossa resposta afirmativa, pediu-nos um depoimento sobre algo curioso da vida dele, pois estava fazendo documentário sobre o grande João.

Demos nossos depoimentos, que não sei se, na edição, foram parar no filme, que não tive oportunidade de ver, quando, por breve período, esteve em exibição.

Assim, alinhando-me à sugestão do meu amigo, penso que, se há alguém merecedor da homenagem, além do grande Nilton Santos, o mais botafoguense de todos os jogadores que passaram pelo clube, este é o jornalista João Saldanha.

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