QUATRO HISTÓRIAS RÁPIDAS DO MEU TIO ALCEBÍADES

(Dedicada aos dois personagens centrais dessas historietas, tio Alcebíades e Batistinha.)

1.

Meu longevo e saudável tio Alcebíades Soares de Souza, com 98 anos, morador de Bom Jesus do Itabapoana, há uns oito anos, teve a oferta de um filhote de tartaruga, para bicho de estimação, feita por um amigo.

Com a quase certeza da imortalidade, disse:

– Não quero, não, Fulano. A gente se apega ao bicho e, quando ele morre, é um sofrimento só. Pior que morte de parente!

2.

Outra do tio Alcebíades. Se a anterior é uma piada, esta agora realmente aconteceu.

Depois de um almoço em casa, em que estavam reunidos seus filhos, genros, noras e netos, a conversa girava em torno do insucesso de um conterrâneo que havia comprado fazenda em Mato Grosso e fracassara, depois de quinze anos de lida, e estava de volta à terra como um derrotado.

Ele, também fazendeiro, voluntarioso, decidido, criticou o desempenho do homem, que não soubera levar o negócio adiante. E, para fechar seu ponto de vista, garantiu:

– Olha, eu vou lá, pego uma terra cheia de mato e, em vinte anos, volto aqui para dizer da beleza de propriedade que fiz!

Batistinha, seu filho mais novo, não se aguentou:

– Pai, daqui a vinte anos o senhor terá 105 anos. Preste atenção!

E foi uma risadaria geral. A sua idade, 85, não lhe pesava, em absoluto.

 

Imagem em culturamix.com.

3.

Mais uma do tio Alcebíades e do Batistinha, um dos maiores gozadores que conheço.

Eu tomava um café com o Batista, no bar do Salim, numa das minhas idas a Bom Jesus.

Tio Alcebíades tinha-se submetido a cirurgia nos olhos, em Belo Horizonte, e já voltara à cidade, mas ainda não havia saído de casa.

Batista sempre reclamava, em tom de pilhéria, da longevidade do pai, pensando na possível herança.

Enquanto sorvíamos goles do gostoso café do saudoso Salim Tannus, o proprietário do estabelecimento pergunta ao Batista por seu pai, que, naquele justo instante, vinha atravessando a Praça Governador Portela, de chapéu e óculos escuros, para se proteger da luz do sol forte da tarde.

Batista olha o pai, com seus passos firmes, e responde ao homem do bar:

– Com uma saúde irritante!

4.

Por ocasião dos Finados, há alguns anos, Batista reclama com o pai, ao ver um amigo de sua idade atravessar a praça, levando um buquê de flores.

– Pai, nem essa alegria que tem o Sebastião Dâmaso o senhor me dá. Ali vai ele, cheio de flores, em direção ao cemitério, prestar homenagens ao seu pai. Todo ano, ele vai lá, limpa o túmulo de véspera e, no dia dois, vai lá depositar flores, fazer uma oração, reverenciar a memória do velho. O senhor nem essa alegria me dá! Aí fica difícil ser um filho agradecido como o Dâmaso! Vão dizer que sou mau filho!

2 comentários sobre “QUATRO HISTÓRIAS RÁPIDAS DO MEU TIO ALCEBÍADES

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