MENDICÂNCIA E INSOLÊNCIA

A mendicância é uma chaga social. E econômica. Pois significa que parte da população fica sem a assistência do vil metal, o que a obriga a depender da caridade alheia.

Mendicância e caridade não são, assim, bons indicadores da saúde da sociedade.

Contudo, quando a mendicância se torna um negócio, feito ordenadamente por grupo de pessoas, além da mancha econômico-social, traz também uma questão de caráter pessoal e de ética duvidosa nela envolvidos.

Nos fins de semana, aparecem em Icaraí grupos de mendigos que se postam em locais estratégicos de afluxo de pessoas e passam horas do dia no trabalho de angariar algum trocado dos transeuntes.

Não se trata, propriamente, de miseráveis sociais, pessoas para quem a vida não reservou nada além da miséria. Pelo menos, aparentemente. São pessoas jovens – homens e mulheres –, com bom aspecto físico, na exuberância corporal compatível à idade, que em nada parecem miseráveis.

Pois um desses jovens, por volta de seus vinte e tantos anos – menos de trinta, com certeza –, sentado à porta da padaria, solicitou-me um trocado para um prato de comida.

Passando por ele, disse que não tinha. Até tinha, mas não dou esmolas. Sou uma pessoa de coração duro para isto. Até dou alimento, lanche, almoço, como faço algumas vezes. Dinheiro, não!

E continuei meu trajeto, para atravessar a Rua Miguel de Frias.

De lá, de seu posto de mendicância, ele me gritou insolentemente:

– É que nunca passou fome!

– Porque sempre trabalhei! – respondi-lhe na mesma altura.

E continuei – o trânsito estava tranquilo.

E como um profeta agourento do fim dos tempos:

– Um dia o mundo acaba!

Eu, já no meio da rua:

– Para mim e para você!

E cheguei até a banca de jornal do Antônio, com quem comentei o fato.

Não fiquei furioso com o falso mendigo. Ele dá o seu golpe, e os desatentos é que caiam. Não, eu! Antônio mesmo me disse que se trata de um espertalhão. Mas isto está escrito na cara dele.

E fiquei imaginando em como será possível a um mendigo insolente angariar a compaixão alheia.

Outro – este já um senhor, de muletas, aspecto frágil – se postava mais abaixo, encostado à grade de um prédio. Não o tenho visto por agora.

Quando via um passante aproximar-se, começava seu discurso sedutor:

– Olá, irmão em Cristo! Dê uma esmola a esse velho inválido! Deus há de recompensar sua caridade.

E, à medida que nos aproximávamos, ele aumentava as tintas da frase, para que conseguisse seu intento.

Da primeira vez que o vi, passei por ele e lhe disse que não tinha trocado. De imediato, ele trocou seu discurso. E recebi pelas platibandas e pelas costas, pois não parei, sua diatribe:

– Miserável, pão-duro! O diabo que lhe carregue. Vá para o inferno, filho do demônio!

Não pude aguentar e ri até a esquina. De um momento para o outro, ele mudou o rumo do discurso: de cantiga de amor, para cantiga de escárnio e maldizer.

E todas as vezes que o vejo lá, faço questão de passar pela calçada, só para ver sua radical mudança de discurso e os impropérios que nos dirige.

Ele é um velho mal-humorado, aparentemente castigado pela vida. O outro, não! É apenas um espertalhão insolente, que, se não consegue dobrar o coração de empedernidos como eu, começa a destilar seu veneno, para ver se minha consciência social doerá.

Como dizem os niteroienses: É ruim, hem!

Rembrandt, Autoretrato como mendigo, 1630 (em depapelytinta.com).

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