HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI (IV)

O FORDECO DO DELEGADO

Era um carnaval dos anos 50. Batistinha tinha uns doze anos.

Por essa época, as pessoas enchiam a Praça Governador Portela, numa balada desordenada, em nada lembrando os passeios dos fins de semana normais, em que os rapazes circulavam em sentido anti-horário, na parte externa, e as moças, no sentido horário, na parte interna do quase quadrilátero formado pela praça. Isto favorecia enormemente os flirts, como à época se chamava a paquera, palavra e, penso, atitude que saíram também de moda há uns bons anos.

Durante os dias de carnaval essa ordem era subvertida, e casais, grupos de amigos e famílias com seus filhos – muitos fantasiados – andavam à deriva, numa barafunda própria dos dias de Momo.

Enquanto algumas meninas lançavam serpentinas e confetes sobre as pessoas, alguns meninos mais endiabrados esguichavam água em passantes distraídos e se embrenhavam no meio da multidão, a fim de fugir de possíveis represálias.

Batistinha era um desses. Talvez o mais ativo e contundente.

Eu achava aquilo meio arriscado. E tinha de sair correndo junto com ele, para não ser pego como cúmplice.

Até que, atendendo a algumas reclamações, o delegado da cidade mandou que os policiais confiscassem o tubo lançador de água dos espertinhos.

E lá se foi a alegria do carnaval do Batistinha.

Mas o aborrecimento com a perda do seu brinquedo logo se transformou em revolta, quando descobriu que o único moleque a não sofrer com a mão pesada da lei era, justamente, o filho do delegado, que manteve o direito de continuar a aporrinhar as pessoas.

E transformou sua revolta numa vingança que me meteu medo.

É bom que se diga aqui que eu era um moleque comportado e via essas diabruras do meu primo com certa reserva e com bastante receio das consequências que, com certeza, viriam.

Pois, naquela noite – era a Terça-feira Gorda, como se dizia -, Batistinha foi a casa, pegou quatro pregos, que colocou estrategicamente sob cada pneu do automóvel do delegado, um carro preto, do tipo cristaleira, dos anos vinte/trinta, muito bem conservado.

O automóvel preto reluzente – era tratado com todo zelo pelo proprietário – estava estacionado em frente à casa do doutor Chiquinho Batista, numa pequena descida diante da praça.

Àquele ponto, a iluminação da praça não chegava muito bem, e uma espécie de penumbra podia favorecer a ação do terrorista mirim.

Na Quarta-feira de Cinzas, quando se deu a conclusão da investigação sumária do “crime” – o carro arriou os quatro pneus um pouco depois da partida -, eu já havia voltado para casa, em Carabuçu, distrito de Bom Jesus do Itabapoana.

E soube, por minha mãe, que tio Alcebíades não ficara nada satisfeito em ser cientificado pelo doutor delegado de polícia daquela peripécia do Batistinha.

As consequências de praxe chegaram aos conformes.

Imagem em vemquetemautos.com.br.

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