HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI (VIII)

Cândido Portinari, Enterro na rede, 1944 (em cecac.org.br).

O ENTERRO DO QUINIM FREIRE

Esta foi o próprio Batistinha quem me contou. Por ocasião do fato, eu já morava em Niterói.

Ele se sentou à cadeira de barbeiro do Moreninho, cujo salão ficava à direita da Rua Abreu Lima, perto da praça, para fazer a barba.

A vez era dele. Nas cadeiras do salão, estavam dois fazendeiros do distrito de Pirapetinga, aguardando para receber os cuidados do barbeiro.

Assim que Moreninho começou a esfregar-lhe o pincel no rosto, todos tiveram a atenção voltada para um cortejo que começava a ganhar a rua, em sentido contrário, na direção da igreja matriz, localizada em frente à praça.

Era hábito, por aquele tempo, as casas de comércio cerrarem as portas à passagem de cortejos fúnebres, como era o caso, motivo por que Moreninho, pego de surpresa, não tinha baixado a porta pantográfica de seu estabelecimento.

Um dos homens, então, indagou de quem seria tal enterro.

Batistinha, sabedor de que os dois homens eram amigos de longa data de Quinim Freire, também proprietário rural, só que figura quase folclórica na cidade por seus causos recheados das mais deslavadas mentiras, resolveu fazer troça com os três: os dois que ali estavam, mais o Quinim Freire, com quem disputava uma partida nunca terminada de fazer gozações com os outros. E disse para o profissional:

– Moreninho, limpa minha cara dessa espuma, depressa. Eu esqueci que é o enterro do Quinim Freire. Tenho de acompanhar.

Aqueles fazendeiros ali sentados assustaram-se e, de imediato, passaram a mão em seus chapéus e entraram no cortejo, atrás do caixão, que era conduzido à mão por seis pessoas. Por esse tempo, não havia a comodidade do carrinho de transporte de caixões.

No meio da pequena multidão que ia respondendo à reza puxada por uma poderosa voz adiante do féretro, eles começaram a indagar baixinho de um e outro qual teria sido a causa da morte do amigo, já que não tinham conhecimento de que estivesse doente. Até que disseram o nome dele.

– Quem? O Quinim Freire? Não! O Quinim não morreu. Esse defunto aí é o Chico Antão. Estava doente há muito tempo.

O cortejo já estava quase subindo o átrio da matriz, quando eles saíram dali revoltados com o Batistinha. E foram, logo a seguir, até a casa do amigo pretenso defunto, que gozava da mais completa saúde, ao qual contaram a brincadeira de mau gosto do meu primo.

Quinim perdeu a esportiva com Batista.

– Não se brinca com a vida alheia! Vou reclamar com o Alcebíades. Até a gozação tem limites!

E lá foi ele lançar, para a conta de débitos do Batistinha, mais essa reclamação no escutador do meu tio.

Pelo que eu soube, Quinim ficou um bom tempo de relações cortadas com ele.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s