UM RISO COMO O MEU

Entrei no Facebook para ver a postagem do primo e amigo Ricardo Machado, que se constituía, na verdade, no compartilhamento de uma foto com crianças pobres africanas brincando de totó (pebolim) com uma caixa de papelão improvisada, como campo de futebol, e arames retorcidos, como jogadores. Um brinquedo feito com as sobras de embalagens.

É uma foto interessante por seus aspectos antropológicos, econômicos, psicossociais e lúdicos. Creio mesmo que ela pode dar uma alentada tese de mestrado, doutorado ou pós-doutorado em alguma universidade por aí. Menos que isso, o FB já fez!

Cliquei, assim, sobre ela para saber sua origem e verifiquei que ela foi postada por Art & Architecture e deve ter origem em paragens internacionais, que não me dei ao trabalho de pesquisar. Fiquei restrito aos diversos comentários em muitas línguas distintas, que me chamaram bem mais a atenção.

Um deles, nesta Babel que é o FB, postou apenas uma interjeição de sorriso: “hehe”.  Então fiquei curioso em saber, no meio daquela barafunda linguística, quem, diabos, ali ria como nós.

Sobre as páginas virtuais da internet aparecem diferentes grafias para representar o sorriso, o riso e a gargalhada, numa profusão de formas não previstas no vocabulário ortográfico.

É bem verdade que muitas dessas representações são estranhíssimas, e não vou transcrevê-las aqui, porque o leitor está careca de vê-las.

No entanto, aquele hehe me chamou a atenção, sobretudo quando vi o seu autor: Munkhbayar Namsraijav.

Aí quis saber de onde – a localização geográfica precisa – veio este riso parecido com o que represento normalmente.

Devo esclarecer para seu alto conhecimento, leitor amigo, que tenho três formas de transcrever o riso, conforme seja a situação: hahaha!, hehehe! e hihihi!.

E o do Munkhbayar Namsraijav era justamente parecido com o meu segundo tipo, talvez um pouco mais comedido. Mas, enfim, igual!

Então cliquei sobre o nome dele e tive a revelação surpreendente de que tal riso, irmão gêmeo do meu, vem da Mongólia, mais precisamente de sua capital Ulan Bator.

Veja o caro leitor como este mundo é menor do que supõe a nossa vã infilosofia! Um cidadão – consta lá: masculino –, residente na capital da Mongólia, ri exatamente igual a nós – ou a mim, pelo menos.

E sem outra coisa a fazer, já que não domino o idioma de Gêngis Khan, curti o hehe dele.

Aí, Munkhbayar Namsraijav, pelo que pude perceber, pelo menos temos alguma coisa em comum: nosso riso internético!

Estou até tentado a comprar uma passagem para Ulan Bator, a fim de conhecer este meu sósia de riso.

Hehehe!

A foto das crianças africanas jogando um rústico totó, como aparece no Facebook.

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3 comentários em “UM RISO COMO O MEU

  1. Ricardo Machado disse:

    É, meu primo, ouso dizer que, pelo riso, seu novo conhecido virtual deve ter mais de 40! Junto com as maravilhas do meio “internético” vêm, também, os modismos. Um dos que mais me intrigam é o que determina a forma de expressar riso/sorriso/gargalhada.
    O que me chamou a atenção para isso foi o olhar de censura de uma funcionária, com uns 30 anos (eu já com 40), quando terminei a escrita com “rssss” – a versão mais moderninha e simplificada, e também menos emblemática, de “hehehe”.

    O “correto”, para os “antenados” seria “huahauahauaua”, ou algo assim, deixou transparecer a moça. Nunca me dobrei a essa forma por considerá-la totalmente sem sentido, já que ninguém ri assim. Devo confessar que até tentei, mas a falta de legitimidade fez com que me sentisse um adolescente anacrônico. “Menos, Ricardo. Segura sua onda”, pensei. Como apaixonado pela comunicação, ative-me à melhor compreensão do comportamento da censora, terreno mais fértil e instigante.

    Não é científico, ainda (rssss), mas creio que, desde que o mundo é mundo, as pessoas – e também a ienas! – usam o “hahaha” o “hehehe”. Para a primeira opção, surgiu na internet o “KKKKK” que é perfeito, eu acho, para representar uma bela gargalhada.

    Numa pesquisa rápida, sem qualquer compromisso com a qualidade da informação (afinal, meu post – não posso chamar isso de comentário, né, grande desse jeito! – não é uma tese de mestrado. Hehehe), encontrei análise da Professora Dra. Silvia Helena Cardoso* em que afirma:

    “Irenaus Eibl-Eibesfeldt , fundador da etologia humana, estudou as expressões faciais de mais de 200 culturas, dos índios xavantes aos esquimós, e descobriu que o sorriso sempre aparece da mesma forma e tem as mesmas funções, como uma expressão facial de fundo emocional, e com claras funções sociais.

    “No entanto, ao contrário do que se pensa, o sorriso parece ser determinado geneticamente e não culturalmente. Especula-se que suas origens evolucionárias possam estar nos animais inferiores.”

    Não tenho mais dúvidas: Olha a iena aí!!! João Ubaldo talvez defenda o lagarto, mas, essa é outra história. A pesquisadora continua:

    “John. J. Ohala, professor de linguística da Universidade da Califórnia em Berkeley, sustenta que nosso sorriso descende diretamente de outros animais, especificamente os primatas não humanos.”

    Tá, em relação ao sorriso pode ser, mas para gargalhada (o “hahahahah” ou o “kkkkkkk”) continuo votando na iena!

    O fato é que o riso/sorriso/gargalhada são movimentos associados à contração de músculos que mexem com as cordas vocais e geram sons característicos. A intenção – salve ela! – agrega ao “espasmo” o sentido: riso frouxo, riso largo, riso irônico, riso reticente: “hehehehe”, meio maroto. Fico, agora, intrigado com o “hihihi”. Seria este um “riso-coringa”?! rsssss

    Deixou outro questionamento: o “huahahahuauauha” é um resgate dos sons dos primatas?

    Enfim, salve a internet que possibilita encontros, trocas, e salve a curiosidade do bem e o interesse pela vida, coisas e pessoas.

    PS: Além de lutar pelo direito de não usar “huahauahaua” abri nova frente de batalha: pela valorização da exclamação! Basta ver a quantidade de vezes que usei a “bengalinha”, mesmo sob o risco de parecer melodramático. Acho que as pessoas, de um modo geral, não gostam dela porque, na escola, aprendem coisas como: “Exclamar é o ato de pronunciar em voz alta; bradar, clamar; gritar”, explicações simplórias que não exploram a finalidade retórica do ponto. Mas, isso é outra conversa.

    Abração, RM

    * Helena Cardoso – MSc, PhD, Psychobiologist, Master and Doctor in Sciences by the University of São Paulo and postdoctoral fellow by the University of California, Los Angeles. Associate researcher of the Teleneurosciences Center, State University of Campinas (Unicamp), Brazil. Site: http://www.cerebromente.org.br/n15/mente/sorriso1a.html

    • Saint-Clair Mello disse:

      Ricardo, entrei com um Fusquinha e você me chega de Ferrari! Texto brilhante e muito bem humorado. Hehehe!

      • Ricardo Machado disse:

        Ihihihihi, comecei bem o dia! A inspiração veio daí. Obrigado por me proporcionar também o estímulo. Abração

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