VOU SER VOLUNTÁRIO NA COPA DE 2014

Desde a última segunda-feira, abriram-se as inscrições para o voluntariado para os serviços necessários à Copa do Mundo de 2014, a ser disputada neste Brasil varonil.

Trabalho voluntário não é propriamente trabalho, já que não tem salário. Assim, é uma espécie de escravidão consentida: você aceita fazer um montão de tarefas, submeter-se a um horário rígido, obedecer cegamente o chefe imediato, e o mediato, e mais algum que aparecer no seu pedaço, sem reclamar. E, no final de tudo, recebe um tapinha nas costas, um muito obrigado e um diploma bem bonito para pendurar na parede do quarto.

E também, segundo noticiado, a organização do evento não pagará passagens para deslocamento do voluntário, bem como ajuda de custo para alojamento. Se você se meter a besta de ajudar, que arque com o ônus disto! Quer dizer, um pouco pior do que o antigo sistema escravocrata, que, pelo menos, dava comida e lugar para se deitar o corpo alquebrado pela lida. Não estou considerando aqui o pelourinho.

Mesmo assim eu vou!

E não estarei sozinho. Há um bando de gente com o firme propósito de servir como voluntário, para que a FIFA fature seus milhões de dólares em cima de nossas costas, os quais levará para os seguros e discretos bancos suíços.

Vai ser um trabalho altruísta em prol do lucro da entidade. Parece justo, não é mesmo? Por todo o canto – a FIFA deve repetir o modelo por onde passa com seu torneio caça-níquel (E que níquel!) -, há um bando de idealistas, cheios de entusiasmo cívico para tal tipo de atividade.

Eu também sou um deles.

Não sei, propriamente, se serei aceito, com a idade que tenho. Mas como sempre há um chileno velho para um zé torto, ou melhor, um chinelo velho para um pé torto, posso ter lá minha provecta utilidade.

Já pensei em algumas, que gostaria de colocar aqui para a reflexão do meu estimado leitor.

1) Pela idade, posso ser presidente da CBF. Tenho experiência na vida, já vi muita água rolar debaixo da ponte, etc., e caibo perfeitamente na cadeira do gabinete da sede da entidade. Além disso, gosto de vinhos e boa comida. Não me furtarei a estar presente a recepções e a comer canapés. Sei fazer pose e dar respostas evasivas para perguntas impertinentes.

2) Também posso ser técnico da Seleção Canarinho. Vamos ser sinceros: além dos administradores da FIFA, acho que só a família do Mano Menezes acredita que ele ficará até 2014 no cargo. Como qualquer brasileiro, sou especialista em futebol. Em meu currículo, tenho cinco copas do mundo como campeão (De ouvir, comecei na de 1954, na Suíça.). Na primeira, de 1958, era menino pequeno lá em Carabuçu, mas sabia de cor e salteado os nomes dos jogadores do time, os do treinador, do médico, do chefe da delegação e do diabo a quatro. Além disso, sou torcedor do Botafogo, clube que mais cedeu craques para os títulos que conquistamos. Tenho know-how!

3) Posso também jogar no meio-campo da seleção, mas aí já dependeria de um preparo físico mais apurado. Como ainda temos dois anos até lá, prometo sair de minha inércia e começar os aprontos. Podem ter certeza de que os torcedores não verão muita diferença entre este meio-campo que aí está e aquele que eu comporei.

4) Ofereço-me também como voluntário para hospedar moças bonitas em minha casa. Primeiro terei de convencer minha mulher a aceitar este trabalho abnegado e desinteressado. Não sei se conseguirei (Minha mulher é linha dura!), mas posso tentar. Assim, aquelas mocinhas que não quiserem gastar muito – ou nada, prometo não cobrar – poderão ficar alojadas aqui em Niterói.

5) Outra função que reputo importante e bem legal de se desempenhar é o de sambista de aeroporto, aquele que será incumbido de oferecer a primeira boa impressão ao turista. É bem verdade que não sei tocar nenhum instrumento, e até canto meio desafinado, mas na hora do refrão – laralaiá, lereleiê – entro no tom e não esqueço a letra. Prometo! E posso mesmo transformar-me em atração turística, ao fazer um passe mais assanhado e ficar com a coluna torta.

Como veem, posso ter minha utilidade como voluntário. Só mesmo com muita má vontade é que não serei escolhido para uma dessas funções. Como não vou ganhar bulhufas, aceito qualquer uma. O prejuízo será igual: R$0,00.

Depois, candidato-me a voluntário para as Olimpíadas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s