BANHOS

O meu chuveiro movido a gás andou aprontando das suas e tive de chamar o técnico para vistoriar o aquecedor.

Estamos oficialmente no inverno, se bem que com uma temperatura civilizada, como diz meu amigo Eduardo Campos. Mas, ainda assim, tomar banho sem aquele chamuscado das labaredas é uma tarefa um tanto inglória.

Passei boa parte de minha vida – até os vinte e poucos anos – tomando banhos frios. Lá na minha casa, em Carabuçu, não havia banho quente. Nem mesmo quando nos mudamos para Bom Jesus, o benefício do chuveiro elétrico era um conforto familiar.

Apesar disso, não tenho na memória qualquer fuga à responsabilidade do banho diário.

Lembro-me de que nos dias mais frios, além da respiração ficar superacelerada, para aliviar um pouco mais, costumava xingar em voz alta. Os palavrões me davam um aquecimento interno que me fazia suportar a água fria.

Caso de fuga a banho só fui conhecer no colégio interno em Campos dos Goytacazes (Não concordo com esta grafia!).

Acordávamos todos os dias às seis da manhã e nos encaminhávamos, enrolados na toalha de banho e levando sabonete e bucha na mão, para o chuveiro, que, na verdade, se constituía de dois canos de uma polegada, sem o crivo, de onde despencava um jato d’água de uma altura de cerca de três a quatro metros sobre nossas costas. Deixar a cabeça embaixo era temeridade.

Assim, nos dias frios, algum colega se rebelava ao sentir a temperatura da água e corria pelado pelo pátio da escola. Ele era, então, levado de volta, à força, por uma brigada de outros colegas, que lhe aplicavam o banho dentro dos procedimentos regulamentares. É que dividíamos o mesmo quarto e não suportávamos dormir com gente malcheirosa.

E continuei tomando banhos frios, até mesmo quando vim para Niterói, em 1967. Na pensão de dona Dinorah, homem não tomava banho quente. Isso era coisa de mulher. Na parte superior da velha casa, em que os rapazes dormiam, não havia chuveiro elétrico.

Até que fui morar num apartamento alugado com mais dois primos e um amigo, onde esta modernidade já estava instalada. Era o ano de 1972. E daí para cá nunca mais abri mão de um bom banho morno. Apenas no alto verão, é que me permito não passar a água por um susto de temperatura.

E não vejo heroísmo ou covardia em se tomar esse ou aquele banho.

Imagem em manonarodablog.com.br

Meu avô Juquinha de Paula morreu sem nunca ter tomado um banho quente. E jamais se vangloriou disto. Meu pai, hoje com noventa e cinco anos, passou mais da metade de sua vida também tomando banho frio. Mas se afeiçoou a uma aguinha tépida, com a maior naturalidade.

Também não sei se há benefício ou malefício neste ou naquele tipo de banho. Ficar sem tomá-lo é que é problemático.

Uma concunhada obrigava seus filhos, durante boa parte da vida deles, a tomar banhos frios, sob a alegação de que faziam bem à saúde, preveniam doenças como as relativas aos pulmões e às vias respiratórias. Era uma tortura ver os dois pequeninos – hoje são adultos, já casados e com seus filhos – tremendo sob o chuveiro. Até que um dia, vieram ficar em minha casa, para que a mãe viajasse a São Paulo. À tardinha, minha mulher, a verdadeira tia deles, disse que lhes iria dar banho morno, mas que eles não poderiam dizer isto para a mãe. Pois foi só a mãe chegar, para que Lorena, a menorzinha, dedurasse a tia. Daniel manteve o trato.

O mais interessante, contudo, é que minha concunhada – ela mesma, repita-se – não tomava banho frio.

Seja frio ou quente, o banho é insubstituível. E não é a mesma coisa que você ir à piscina ou à praia. Isto é outro departamento. Tanto que, assim que se sai de um desses lugares, a primeira providência é tomar um bom banho.

Porque banho é higiene, é salubridade da vida.

Também não acredito que tenhamos aprendido este hábito com os índios. Nossos índios propriamente não tomam banho. Eles brincam na água. Aquilo não tem para eles o sentido de limpeza corporal, de assepsia.

Aliás, o banho diário passou a ser prática nacional apenas a partir do fim do século XIX, segundo li em algum lugar por aí.

Agora, vocês vão me dar licença, pois vou tomar o meu banhozinho morno.

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