CULTURA INÚTIL

Almoçava com Jane no Bar Luiz de muitas glórias e histórias, neste sábado.

Ao lado de nossa mesa, estavam quatro mulheres de várias idades. Pelo que pude perceber: neta, mãe, avó e uma outra de idade aparentemente semelhante à da mãe da jovem, uma garota de seus prováveis dezesseis. Nessas situações, sem prova documental, tudo é aparente, tudo é provável.

Até que a atenção da falante avó, nem tão idosa assim, foi chamada por um cartaz redondo colado à parede entre nossas mesas, no qual constava informação sobre o Bar Luiz e sua fundação em 1887. E ela leu o texto, colocado às costas da neta, que se virou rapidamente para ver. A jovem deve ter comentado, porque só ouvi sua avó dizer que “não era cultura inútil”.

Imaginei, então, que moça deve ter dito que a informação contida no cartaz não passava de cultura inútil: para que serviria isso?

Embora eu estivesse comendo com prazer um “alemão completo”, cuja descrição permito-me não transcrever aqui, a fim de que sua atenção não se perca dos meus argumentos, não pude deixar de voltar no tempo.

Por volta dos anos setenta/oitenta do século passado, surgiu este mote equivocado de “cultura inútil”. Havia, inclusive, um personagem de humor vivido por Agildo Ribeiro na tevê, em que ele, que tinha sido o melhor aluno da escola, era um simples faxineiro do aeroporto internacional, enquanto seus ex-colegas bem menos dedicados aos estudos eram os passageiros a embarcar para a viagem de férias. E riam dele que ainda repetia os nomes dos afluentes das margens do rio Amazonas, dentre outras coisas. Terminavam por dizer “cultura inútil”.

Como professor de língua portuguesa estava, então, sempre a ouvir o mote como um mantra maldito, para uma série de novidades que levava para os alunos na faculdade. E me batia sempre contra essa visão emburrecida de que haja cultura inútil. Não há cultura inútil. Ou não será cultura.

E ontem, na mesa ao lado da minha, ouvi novamente a mesma e velha frase que se tornou um escudo dos que se recusam a aprender, a enxergar além do seu pequeno mundo, e cuja audição me dava certo desespero.

Porque parecia que a “cultura inútil” é aquela que não pode ser transformada em dinheiro, em ganho. “Se isto não me dá dinheiro, para que vou aprender” – era o que me parecia significar.

Sempre que algum aluno me vinha com tal argumento, eu lhe dizia que, se de nada valesse para sua vida prática a informação, ele poderia ir a qualquer programa de tevê responder a questões e a concorrer a prêmios em dinheiro.

E como forma de lhes provar que não havia cultura inútil, certa vez levei para exercício de compreensão o texto O carioca é. Antes de tudo*, de Millôr Fernandes. Lá pelas tantas, dentre várias definições de carioca, o autor diz que os cariocas podem ser até mesmo louros importados da Escandinávia. Brinquei, então, dizendo que só os que foram bons em Geografia poderiam entender esta afirmação. E, numa turma de cerca de quarenta alunos, ninguém sabia o que – diabos! – significava Escandinávia, nem onde ficava.

Estou escrevendo este texto na noite de sábado mesmo – programo sua postagem de véspera. Espero que não tenha pesadelos com meus tempos de professor, tendo de ouvir de certos alunos a frase maldita “cultura inútil”.

Boa votação para você, amigo leitor!

Imagem em amicaphilosophiae.blogspot.com.

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* Se quiser conhecer o texto de Millôr Fernandes, clique aqui.

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