MESTRE MAESTRO

NOTA: Em 11/3/2011, publiquei em Asfalto&Mato este texto. Republico-o aqui, em homenagem ao meu sogro, Beethoven Neiva, falecido na última sexta-feira aos noventa e seis anos. É parte da sua história.

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Em fins do século XIX, princípios do século XX, o maestro e compositor José Pedro Neiva exercia a atividade de professor de música, para sustentar a família numerosa que formara com Pautila Evaristo, carinhosamente chamada por Tiloca.
 
Dos embates de colchão, nasceu-lhes uma fieira de filhos. Sete ao todo, cujos nomes, com a possível exceção do primeiro, demonstravam claramente sua paixão pela música: José, Verdi, Wagner, Beethoven, Lira, Cecília e Euterpe. Em todos eles, acrescentou, logo após o nome, três notas musicais de uma obra clássica de sua preferência. Deste modo, o primogênito recebeu o nome completo de José Si-ré-fá Evaristo Neiva, que, se não falham as crenças familiares, fora nomeado com as três primeiras notas de uma sinfonia de Beethoven.
 
Em lombo de burro, percorria ele as estradas e os caminhos de chão batido de Morro Alto, Minas Gerais, hoje Barão de Monte Alto, para ensinar nas fazendas, sobretudo, às filhas dos fazendeiros, numa época em que ser mulher prendada das classes abastadas exigia, dentre outras qualidades, conhecimento musical.
 
Nesta atividade, ficava fora de casa por duas, três semanas, ou até mesmo um mês. Deste modo, todo o cuidado dos filhos ficava sob o encargo de Tiloca.
 
Nem sempre, no entanto, o maestro deixava o suficiente para a alimentação da prole, pelo tempo em que estivesse ausente, motivo por que, com frequência, Tiloca ficava sem os meios necessários para manter a alimentação farta e saudável de todos.
 
Para agravar a situação, o maestro instituiu na família aquilo que se pode chamar de “ditadura musical”. É que exigia que todos os filhos aprendessem teoria musical, bem como a tocar um instrumento.
 
Assim, antes de sair para o périplo pelas propriedades onde dava suas aulas, passava os deveres e as lições que cada um tinha de efetuar, para que, ao voltar, cobrasse individualmente a tarefa pronta e bem realizada, sob pena de castigos.
 
Pelo tempo em que se deu a história, nem é preciso dizer que a bordoada descia firme no lombo de quem não cumprisse o determinado.
 
Acrescia-se a esse caráter despótico-musical do maestro José Pedro, uma paixão também por aquela que matou o guarda, a dita água que passarinho não bebe, a camulaia, ou lá o sem-número de denominações que a cachaça receba nos dicionários de língua nacional ou nos recantos mais afastados desse país afora.
 
Assim, amiúde, voltava ele já com o teor alcoólico de entortar bafômetro, com disposição redobrada para tomar as lições que deixara para os filhos, sobre os quais despejava sua intolerância.
 
É óbvio que o ambiente não era dos melhores, e Pautila não tinha o pulso forte para frear as intempéries paternas que assolavam a casa.
 
 
Deu-se, então, como ninguém vive para sempre, que o maestro e compositor José Pedro Neiva, certo dia, acertou as notas e as harmonias com Deus, indo viver em outra pauta e deixando muitas tarefas por cobrar de seus filhos.
 
Passado o velório, enterrado o ditador musical no cemitério da cidadezinha, juntaram os filhos os instrumentos de suplício que eram obrigados a aprender, inclusive um piano de cauda, meteram o machado em tudo e, acrescentando as partituras de suas composições, fizeram uma grande fogueira no quintal de casa.
 
O fogo limpou todos os maus tratos que receberam, aliviou-lhes a alma.
 
Infelizmente, com a distância que o tempo nos concede, hoje se lamenta tal perda, pois tenho quase a certeza de que desapareceram obras maravilhosas, pelo caráter apaixonado de quem as escreveu.
 
Dos filhos, a única que se manteve ligada à música durante toda sua vida, como professora e acordeonista, foi Euterpe, que ironicamente trocou seu nome para Dirce.
 
Hoje, o único sobrevivente desta história é Beethoven Evaristo Neiva, às portas dos noventa e cinco anos, meu sogro, surdo como seu epônimo, que, logo depois de entortar o pistom que lhe era imposto como instrumento de tortura, foi a cartório para retirar do nome as notas musicais e apagar da memória tudo de ruim por que passara.
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