DOA-SE CÃO MAL-EDUCADO

Minha cunhada Maria Lúcia, moradora de Macaé, há alguns anos, era a desesperada proprietária de dois cães: uma fêmea mais antiga, Pipoca, e um macho mais novinho, Broto. Ambos, da mesma raça – pinscher. A fêmea, segundo ela, era tamanho 0. O macho, uma coisiquinha à toa maior, ela diz que devia ser 0,5.

Broto era um cão destrambelhado, atabalhoado, desacorçoado, que não obedecia, não se comportava e, volta e meia, queria fazer saliências com Pipoca. Esta, embora não fosse nem virgem, nem virtuosa, pois já conhecera biblicamente outros cães, tinha aposentado seu lado sexual e não se dispunha mais a fazer coisas com cachorros. Broto, no entanto, não queria saber disso e ficava sempre prevalecendo de seu tamanho meio ponto acima da pobre coitada, para tentar alguma coisa com ela.

Minha cunhada se estressava enormemente com o comportamento deletério do Broto, que insistia em entrar em casa, e pulava para pegar as roupas a secarem no varal, e fuçava os canteiros de suas flores, e destruía sapatos e sandálias deixados a tomar ar na varanda dos fundos. Com ela, cão não atinge o status de ser humano e deve limitar-se ao quintal, à sua casinha e a uma escapulida, vez e outra, pelo bairro, o condomínio Mirante da Lagoa.

O estremecimento na relação da dona com o cão chegou ao ponto de ela se dispor a doar Broto. Oferecia a um e outro, mas ninguém se dispunha a aceitar um cão mal-educado e perturbado da ideia como aquele. Sua fama corria longe.

Até que seu Orlando, mestre pedreiro que andou fazendo trabalhos em sua casa, resolveu aceitar o cachorro. Por qualquer inescrutável motivo, ele se afeiçoara àquele baderneiro canino. E combinou com Maria Lúcia pegá-lo lá num dia qualquer do próximo fim de semana.

Sexta-feira pela manhã, seu Orlando liga para ela, dizendo que não poderia ir até sua residência, mas mandaria um amigo pegar o animal.

Por volta do meio-dia, Maria Lúcia recebe a visita de uma amiga que lhe fora mostrar o carro que acabara de adquirir. Aproveitou a visita dela, para dizer que encontrara quem ficasse com Broto naquele mesmo dia. A amiga mesma era uma das pessoas que declinara dessa deferência: também se recusara a receber o celerado. E ficou feliz por Maria Lúcia ter encontrado alguém disposto.

Toca a campainha. Maria Lúcia olha pela janela e vê lá um homem desconhecido. Pega Broto, depois de certa insistência, e o entrega ao homem. Pronto, estava livre do desesperado!

No final da tarde, volta o homem com o Broto lavado, escovado, perfumado, colarzinho de fita azul no pescoço.

O homem era do pet-shop e se enganara de casa. Deixou de pegar o cão do vizinho e levou o Broto para uma tarde de estrela no salão. E o devolvia agora no auge da produção canina.

Retrato falado do Broto, segundo registro policial (em dogbreedinfo.com).

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2 comentários em “DOA-SE CÃO MAL-EDUCADO

  1. Hihihihi…esse Broto é dos meus.

  2. Silvia Britto disse:

    Vou apresentar o Broto à minha peste, a viralata Ritinha. Talvez juntos, destruam o mundo!

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