SORTE NO AZAR, AMOR NO JOGO

Não é que o cara fosse azarado. Pois – sorte ou azar – tudo é uma questão de ponto de vista. Se alguém ganha sozinho na megassena acumulada, pode-se achar um cara sortudo. Eu, por meu lado, penso que fui o azarado, por não ter faturado aquela grana.

Porém conheci um camarada que era sortudo para o azar, o Euclides. Tudo que era coisa ruim acontecia com ele. Como não tenho nada a ver com isso, penso sempre que ele tem uma sorte danada para o azar.

Mas nem sempre a coisa funciona assim.

Já, no caso do amor, tudo ocorria com ele como se fosse num jogo: ele era o joguete na mão das mulheres.

Conhecem aquele brinquedo antigo chamado bilboquê, que tem uma esfera com um furo pequeno e uma manopla com um pino que se encaixa no dito furo? Ele é a esfera com o furo. Vive tomando dentro. E sem saber por quê!

 

Bilboquê (imagem em muraldocolecionador.blogspot.com).

Mas é o que sempre lhe digo:

– Cara, você dá uma sorte danada para o azar. Vai ser sortudo assim no raio que o parta.

E ele ri, com jeito de cachorro que virou a panela do vizinho, conformando-se.

Um dia desses, chegou dizendo que perdera na loteria federal, aquela dos bilhetes, por um único número. A milhar sorteada – do jacaré – 30457 foi pertinho da dele: 40572. Na sua lógica, ele me disse:

– Está vendo: deram todos os números, mas em vez do 3 deu o 2!

Retruquei dizendo que não havia nada de parecido a não ser a coincidência dos algarismos, mas tudo embaralhado. Contudo ele se manteve irredutível em achar que passou perto: era só o destino – ou lá o que o valha – ter distribuído melhor os algarismos e ele iria faturar algum.

Até que um dia, ao atravessar a rua apressadamente, a fim de pegar a barca que já anunciava o momento da partida, foi atropelado por um triciclo de gelo picado. E reclamou comigo, quando fui visitá-lo no hospital:

– Sou muito azarado, cara! Quebrei todas as costelas do lado esquerdo. E ainda vieram os sacos de gelo sobre mim. Quando a ambulância chegou, eu já estava roxo de frio. E um idiota lá gritando: Não mexam com ele, senão piora; esperem os bombeiros!

– Você foi é sortudo! – retruquei, de pronto – Não quebrou as costelas da direita e ainda teve o gelo para aliviar a dor. Se fosse azarado, a esta hora estaria com todas as costelas quebradas. E sem a ajuda do gelo…

Quando estava saindo do quarto, chegou sua namorada, brava:

– Muito bonito, hem, Euclides! Você ultimamente arranja tudo que é desculpa para não se encontrar comigo. Fiquei esperando no restaurante e você não chegou! Agora está aí com essa cara de cachorro abandonado no lixão!

Saí de fininho, para não dar uma gargalhada na frente do amigo sortudo.

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