A GUERRA DO BOLO REI

Estava em Miracema, em meio aos colesteróis saborosos do bar do Marquinhos, e, não sei por que, o papo virou para glicoses e demais açúcares.

Dona Eliane, a cozinheira de todos os quitutes, disse gostar muito de panetone com frutas secas. Falei-lhe, então, do bolo rei, que ela desconhecia. Fiz o elogio do bolo, no meio de um monte de homens bebendo cerveja, entrecortada por pinga e tira-gosto variado. Pareceu estranho, mas meu discurso encantou dona Eliane. Prometi-lhe, então, levar, quando de minha volta, o tal bolo, para ela que o experimentasse.

Voltei um mês depois e fui cobrado. Miseravelmente agi como político, conforme lhe confessei na hora: prometi e não cumpri.

Segundo mês depois, antes de ir – inclusive agendei no telefone celular a tarefa de procurar o bolo rei, para que não esquecesse –, levei alguma coisa com fruta seca, mas que não era o autêntico. Na oportunidade, as padarias onde sempre comprava essa iguaria – Colonial e Beira Mar – não o produziam. Informaram-me que só pelo Natal e pela Páscoa.

Antes de ir pelo terceiro mês consecutivo, a partir do episódio inicial, descobri que a Padaria Colonial voltara a fazer o bolo, “atendendo a inúmeras solicitações”, como dizia o cartaz colocado sobre a bancada.

Comprei o bolo, levei para dona Eliane, saldei a minha dívida. Depois, ela me disse que gostara muito.

Há cerca de um mês, o bolo rei da Colonial foi escolhido por uma associação do ramo como o melhor do Rio de Janeiro e arredores, segundo noticiado pelo jornal O Globo-Niterói.

Bastou, então, para que a Colonial estampasse um cartaz feito à mão – aliás, todos os cartazes da Colonial são feitos à mão – com a seguinte frase: “O bolo da vitória!”.

Não sei bem por que, mas sempre acho que há uma rixa entre essas duas padarias próximas de onde moro. Ambas pertencem a portugueses. Contudo a padaria Beira Mar é mais sofisticada, mais premiada, mais variada, e muito mais cara do que a Colonial. Cada uma tem seus trunfos, suas especialidades imbatíveis. Mas sinto que há alguma coisa. Tanto que, ao passar diante da Colonial com uma sacola de compras da Beira Mar, o gerente olhou para mim com cara de reprimenda e disse:

– Está nos traindo, hem!

Confesso que, na hora, fiquei vermelho, embora nunca tenha declarado fidelidade a qualquer empreendimento comercial. Já basta a que fiz a Jane, e que é muito difícil de ser seguida à risca.

Agora também a Beira Mar já está expondo seu belo bolo rei, de aparência mais sofisticada, embalagem supercaprichada, enquanto o da Colonial é mais rústico. Sempre com as diferenças de preço que caracterizam as duas empresas.

A Colonial já providenciou um novo cartaz, em que ressalta o gosto insuperável de sua obra premiada.

Talvez, na próxima ida à padaria, encontre mais algumas estratégias de marketing, para nos convencer comprá-lo.

Infelizmente já não posso comer nada que contenha açúcar, a fim de que não entre no redemoinho da diabetes. Mas fico só de olho grande sobre essas coisas todas, que já me deram muito prazer ao paladar e agora são apenas peças de uma guerra anunciada: a guerra do bolo rei.

 

Bolo rei (em omelhordeportugalestaaqui.blogspot.com).

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