HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI (XI)

Zé Fábio é meu primo e também primo do Batistinha. Quando passou no antigo exame de admissão ao Ginásio, uma espécie de minivestibular da época – ou ENEM, nunca saberemos –, como morasse na roça, veio para Bom Jesus do Itabapoana estudar e foi morar exatamente na casa do Batistinha. Nossas mães são irmãs.

Todos fomos criados na religião católica e tínhamos o hábito de ir à missa aos domingos.

Batistinha, porém, nunca foi muito chegado, mas se submetia, até o início da adolescência, ao mando da tia Colola, que exigia a frequência à igreja, sob ameaça de algum castigo. Por exemplo, não ir à desejada sessão-mirim do Cine Monte Líbano, estrategicamente marcada para quinze minutos após o término da função religiosa.

Como fosse ainda um tanto cru de Bom Jesus e suas artimanhas, de Batistinha e suas tramoias, Zé Fábio ia com o primo à missa das nove horas. Sempre chegavam um pouco antes, e Batistinha o chamava para se sentarem no degrau externo, próximo à porta lateral, que dava de frente para a Leiteria Bom Jesus.

Daí a pouco, Batistinha se levantava, dava uma olhada rápida para dentro da igreja e dizia:

– O padre ainda não chegou. Não é preciso entrar ainda.

Passados mais alguns minutos, nova olhadela:

– Ih! Agora o padre está falando e a gente não pode entrar, porque atrapalha.

Um tempo depois:

-Está na hora de entrar.

E pegavam as palavras finais, do tempo da missa em latim:

Ite, missa est.

E os dois se juntavam ao coro de vozes dos fiéis:

– Amém!

E faziam o sinal da cruz para arrematar tudo, conforme mandava o figurino.

Até que Zé Fábio entendeu o truque do Batistinha para fingir que assistiam à missa, da qual saíam pela grande porta da frente, embolados à pequena multidão. Qualquer olheiro da tia Colola poderia jurar que os vira saírem da função religiosa como piedosos cristãos.

E o Cine Monte Líbano estava logo ali, com a porta escancarada aos pequenos fiéis cumpridores de seus deveres religiosos.

Como o Batistinha, por exemplo!

 

Igreja Matriz de Bom Jesus do Itabapoana (foto do autor, em flickr.com/photos/saint-clairmello).

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