UMA VIDA POR UMA PENSÃO DO INSS

O cara já perdeu sua vida, metaforicamente, há muitos anos, mergulhado na cachaça. Vive, a bem dizer, na rua. Mas tem um canto para se esconder.

A dona do muquifo recebe ninharia para que ele se esconda lá, quando quer. E controla, mais ou menos, a aposentadoria minguada que recebe.

A esposa, no entanto, é sua procuradora. E tem por ele o apreço do tamanho de um grão de areia. Só pensa no dia em que ele desencarnar. Vai, então, poder correr ao posto do INSS mais próximo para requerer sua pensão.

Mas ele é duro na queda. Quase imorrível.

Contudo sempre há a primeira vez e a saúde do cara começa a fazer água, como um barco de fundo podre, há muito encostado à margem do rio, sob a sombra de uma árvore, apenas seguro por uma corda puída. Essa é a imagem.

E dá com os cornos numa cama de hospital, inchado por todos os lados.

A situação é grave.

Ligo para a esposa, aquela mãe dos filhos, abandonada com os meninos pequenos, a troco da bebida, que quase se compadeceu da situação dele:

– Como vai ele?

– Muito mal! – responde-me ela, emendando – Se Deus quiser, não passa desta semana!

Imagem em o diariodaalegria.blogspot.com.

Não rio, para não ser conivente com o desapreço, embora só o conheça de referências desairosas, péssimas ausências – como diz José Cândido de Carvalho – que ela faz do infeliz.

Porém ele é duro na queda. Tem fígado praticamente esterilizado. Naquelas veias, como diz a canção, corre muito pouco sangue. Quase só álcool. E sua vida tem sido um longo acorde dissonante.

Outro dia, passo por ela e a noto de cara amarrada, em feitio de aborrecimento grave. Comento com minha mulher, que me sussurra:

– É que o marido não morre e ela ainda não pode requerer a pensão.

Ela já tem tudo em mãos, todos os documentos. É até sua procuradora. Andou mesmo indo à igreja. Desconfio que seja para pedir ao Criador que apresse a requisição daquela alma empapada em pinga. Talvez lá em cima tenha alguma serventia. Porque, enquanto vive, só dá desgosto e prejuízo.

Aí vem a família dele, de Nova Friburgo. Alguns parentes souberam da situação daquele desgarrado, de quem não tinham notícias há anos. Eles têm posses. Dinheiro não lhes falta. E rebocam o parente de Miracema para hospital melhor, com maiores recursos, na cidade serrana.

Telefono para saber novas notícias.

– Vou ter de ser mais paciente. – me diz ela – Os parentes ricos vieram para levar ele para Friburgo.

– E o que você fará? – quis saber.

– Só me resta esperar. Que Deus me dê paciência nessa hora tão difícil.

Quem está para morrer é o outro. Mas sua morte valerá pensão de um salário mínimo. O quanto basta para rebocar o muro e botar portão novo no quintal. E, depois, viver um pouquinho melhor, porque dele nunca viu um centavo.

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