A ALDEIA MARACANÃ

Vou mexer em vespeiro. Mas este é um assunto bom para discussão.

Envolve a demolição do antigo Museu do Índio, um prédio antigo próximo ao Maracanã, para a construção de estacionamento, visando à Copa do Mundo de 2014.

Aliás, esta Copa da FIFA é o bafo! Desde que o Brasil foi anunciado como sede do torneio de futebol, só ocorrem polêmicas.

Também estava prevista a demolição do prédio da Escola Municipal Friedenreich. Contudo, mobilizada a sociedade, o governo voltou atrás e resolveu manter a escola em seu devido lugar. Não fosse tal pressão, e o prédio seria apenas memória.

O velho prédio do Museu do Índio, que visitei em sua função própria no início dos anos 60, agora é precariamente habitado por alguns índios.

Dia desses, estava ouvindo entrevista com o deputado Fernando Gabeira, que esteve no imóvel.

Tenho para mim que, em assuntos deste tipo, Gabeira é insuspeito, por sua própria história de lutas. No entanto ele se mostrou contrário a que índio, ou qualquer outra pessoa, permaneça no local, devido às péssimas condições do imóvel. Segundo entendi de sua entrevista, o prédio está fatalmente condenado à demolição, por impossibilidade técnica de ser mantido em pé por mais algum tempo, representando, mesmo, sérios riscos para os que lá estão.

Agora, o que me chamou mesmo a atenção foi a denominação que deram para o prédio: Aldeia Maracanã. E a consequente mobilização de parte da intelligentsia carioca, em defesa da “aldeia”.

Ora, meus amigos, o que é isso? Que aldeia é essa? Que contorcionismo social, etnográfico e linguístico para chamar um lugar com péssimas condições de moradia para qualquer ser humano ser chamado de aldeia?

É bom lembrar que os índios que ali estão, se moram efetivamente no local, são pessoas citadinas, urbanas. Deixaram seu modus vivendi, seu mundo, em favor de uma experiência urbana. Estão ocupando um espaço já existente na cidade com outra função que não a de uma aldeia. E a só habitação de índios no espaço não confere a este o estatuto de aldeia. Ou eu já não entendo mais nada.

Não estou querendo que as autoridades mandem os índios de volta a seus locais de origem. Como brasileiros, são contemplados pelo direito constitucional de ir e vir. Mas se a todos os lugares que eles forem ou onde estiverem, fora de seus parques, tiverem de ser transformados em “aldeias”, daqui a pouco poderão pretender a demarcação de tais espaços citadinos.

Ou estou sendo exagerado?

Os índios, do ponto de vista legal, são considerados em três categorias: isolados, em vias de integração e integrados. Apenas parte deles recebe a tutela do Estado brasileiro, aqueles não adaptados “à civilização do país”, como consta do Código Civil brasileiro (art. 6ª, § único). Portanto esses que moram no casarão devem adaptar-se ou já estão adaptados.

E o prédio do antigo museu não pode ser considerado aldeia só porque eles estão lá. Eles estão fora de seu ambiente natural e vieram para o espaço do branco, do negro, do pardo, do mameluco, do cafuzo, do amarelo, do diabo a quatro. Do asfalto e da gasolina, do IPTU e do IPVA. Do samba, do funk e do chorinho. Portanto, se saíram de sua cultura nativa, devem adaptar-se às terras onde estão.

Se vão ou não demolir o casarão, é outra questão. Agora, que aquilo ali não é nenhuma aldeia, tenho a mais plena convicção disto.

Em Roma, como os romanos!

 

Aldeia Ipatse, Parque Indígena do Xingu (foto de Tiago Queiroz, em estadao.com.br).

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