EM FAVOR DO CAFÉ INEXPRESSO

Na faculdade, ao fazer o curso de Letras, fui apresentado ao inexpresso.

Eu, rapaz quase inocente do interior, fui jogado diante daquilo que o autor não dizia, mas queria dizer. Se já era difícil entender o expresso, imaginem o inexpresso. Era um tal de ver nas entrelinhas, no não dito, no não expresso. Era um tal de procurar as intenções profundas da mente do autor naquilo que não estava dito, que passei boa parte do meu tempo de estudante treinando isso: procurando a verdadeira intenção que subjaz ao expresso.

Tempos depois, o Brasil introduz e difunde o consumo do café expresso, um dos diferentes jeitos de o italiano fazer café.

Foi, seguramente, lá pela época do Zé Sarney na presidência e seu famoso plano de salvação nacional, alardeado nos meios de comunicação de massa.

Lembro-me perfeitamente disso. Estava com o carro na oficina, resolvendo um problema de incêndio na bobina, coisa muito comum em Brasília, não a capital, mas o veículo produzido então pela Volkswagen. A Brasília da Volks era danada para incendiar a bobina e, via de consequência, o restante do carro, se você não o socorresse a tempo. Os incêndios de Brasília, capital, queimam apenas o restante do país. Lá mesmo há dezenas de bombeiros a explicar tudo, a não saber de nada, a não estar nem aí. O resto é que se lasque!

Pois muito bem! Sarney, a partir daquela alocução bombástica à nação, estabeleceu que nenhum preço poderia sofrer mudanças para cima. Todas as tabelas estavam congeladas. Desde o preço dos automóveis ao do cafezinho da esquina, incluído o cardápio do restaurante, os secos e molhados do armazém e dos diversos serviços, até mesmo, imagino, os das casas de tolerância.

A única hipótese de novo preço era por novo produto. O mesmo produto deveria manter o preço daquele dia fatídico, divisor de águas entre o velho país e o novo que estava nascendo, para a salvação da economia popular.

Lembro-me, por essa época, da utilização de um recurso muito brasileiro para se dar a volta em leis, posturas e regras. O restaurante onde sempre almoçava, o Monterey, na Rua Dom Manuel, fechou por uma semana, deu uma pintura nova nas paredes, trocou as toalhas quadriculadas das mesas e surgiu com um novo cardápio. Assim aquilo que antes era chamado de dobradinha à moda do Porto passou a ser dobradinha à portuguesa; o cozido à espanhola virou cozido à madrilena; a feijoada completa transmudou-se em feijoada à carioca. E por aí afora. E meteu preço novo, majorado, em todo o cardápio. Tinham descoberto a solução.

E como fazer com o velho cafezinho, tão caro aos brasileiros? Não havia como batizá-lo com um novo nome, sendo ele o de sempre. Simplesmente começaram a instalar as máquinas de café expresso – novidade no mercado – e a cobrar um preço maior. O velho e bom café, coado em coador de pano, em cafeteiras elétricas ou a gás, entrou a perder terreno para o café expresso. Há locais onde ele simplesmente não mais existe.

Imagem em blograngel-sertao.blogspot.com.

O tradicional cafezinho à brasileira está desaparecendo do Brasil, em favor de um café diferente, de estilo estrangeiro, cujo preço chega, às vezes, ao quíntuplo do valor daquele.

Eu gosto de café. Qualquer um. Até do café à moda árabe, com o pó no fundo da xícara (Já tomaram?). Gosto também do café expresso. Mas há pessoas que não o tomam. Minha mulher, por exemplo. E, assim como há instantes em que você prefere cerveja a vinho, também há momentos em que você deseja tomar o café tradicional.

Por outro lado, com isso também estamos desabituando o brasileiro a tomar o café com o seu jeito de fazer. Estamos matando o tradicional cafezinho brasileiro. Estamos tornando o nosso café inexpresso, como os sentidos escondidos dos textos literários que eu buscava desesperadamente durante meu curso de Letras.

Por isso é que estou levantando a bandeira em favor do nosso cafezinho. Vamos salvar o cafezinho à nossa moda, antes que ele desapareça por completo.

Sei que isto não vai dar em nada. Esta tribuna é mais simples do que o caixote em que o cidadão sobe para fazer discurso no Hyde Park, em Londres. E, além de tudo, está tentando lutar contra o miserável lucro, que o capitalismo erige como finalidade maior das empresas.

Temo que daqui mais uns anos este traço de nossa cultura tenha simplesmente desaparecido.

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