O CHUVEIRO

Há alguns anos fizemos uma reforma nos banheiros do apartamento. Jane queria muito e, contrariando meu desejo de permanência eterna das coisas que estão sossegadas, acabei dobrando-me ao desejo dela. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Corria desembestada a gloriosa crise de energia elétrica do governo FHC, e resolvemos substituir os chuveiros elétricos por chuveiros a gás, a fim de não passarmos pelo constrangimento de um banho frio em um dia idem. Esses tais chuveiros elétricos já eram substitutos de uma coisa obsoleta chamada boiler, que viera instalada nas unidades residenciais pela construtora do edifício e davam mais problemas do que benefícios.

Quando fomos escolher o modelo do novo crivo, que é o nome que se dá à peça que asperge a água sobre o banhista, pudemos fazer um test wash (Hehehe!), pois a loja dispunha de uma banheira comprida em que estavam os vários tipos oferecidos. Então era possível abrir o registro de cada um, para ver seu desempenho.

Optamos por um da Deca, cujo modelo não me ocorre agora e também não vou pesquisar para informar a você, amigo leitor, pois não estou faturando nada com este comercial. Só sei que o dito modelo exige, no mínimo, oito metros de coluna d’água, para que você possa usufruir de todo o seu potencial.

Pois muito bem! Depois da obra pronta, tudo seco – rejuntes e tintas – fomos fazer a estreia do novo chuveiro. Devo confessar que, naquele momento, fiquei com pena dos comuns dos mortais que têm esses chuveirinhos mixurucas em casa, que, para molhar, é preciso que você faça uma novena a São Pedro.

Lembro-me, inclusive a esse respeito, de um desconforto passado numa pousada em São Pedro da Serra, de propriedade de um argentino, em que o chuveiro – segundo ele, novinho em folha – borrifava alguma água sobre a cabeça do hóspede, em menor quantidade do que aquele instrumento que os padres usam para jogar água benta nos fieis. Reclamei com ele, e ele me disse que o chuveiro estava funcionando perfeitamente. Nunca mais voltei lá. Não pago para ser insultado na hora do banho!

E tenho tido algumas más experiências com chuveiros Brasil e mundo afora. Tomar banho num hostal em Madri, junto à Plaza Callao, era de provocar estiramento muscular, tal o contorcionismo exigido.

Por isso é que, quando fico alguns dias fora de casa, a maior saudade que me ocorre é do meu banho caudaloso.

Mas, ultimamente, me têm ocorrido umas recaídas tipicamente cristãs. Agora, por exemplo, neste verão de feição senegalesca, tenho tomado banho com o registro pouco aberto, de modo a cair menos água sobre mim. Não para economizar o precioso líquido; mas, sim, por mortificação cristã. Fico pensando nos meus semelhantes que não dispõem desta maravilha tecnológica e me sinto um tanto pecador por desfrutar deste prazer quase sexual, sob a vazão portentosa do meu chuveiro.

Para se ter uma ideia, tão logo o instalei, pensei em convidar meus colegas de trabalho a virem à minha casa apenas para tomar banho. Não lhes ia fazer um belo almoço; não lhes ia oferecer uma cervejada com tira-gosto: apenas sabonete, toalha e um banho exuberante, muito próximo a um banho de cachoeira.

Este meu chuveiro é um diferencial na minha vida. Aliás, por não saber nadar, não me meto em nenhuma água que passe da altura do meu tornozelo. Certa vez, quase me afoguei numa banheira de hidromassagem em Maringá-MG. Mas, com toda a sinceridade, sinto que nasci para tomar banho de aspersão e não de imersão.

Vou lá tomar mais um banho refrescante. Fique com inveja, leitor amigo.

Viva o meu chuveiro!

Imagem em sorvetedemorango.com.br.

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