PEGANDO NO TRANCO

Imagem em ervilhamaluca.com.br.

 

O dia amanheceu brilhando e o encontrou como um porco esparramado pela cama. A noite tinha sido obesa! A combinação de bebidas e comidas gordurosas, chegadas na fritura; a música bate-estaca no último volume, o sacolejo do corpo madrugada adentro; o rodízio de beijos; a excitação inglória… Melhor nem lembrar. Melhor fingir que a vida pudesse continuar seguindo seus trâmites burocráticos, como de costume, mas aquela sensação horrorosa pelo corpo, a cabeça batendo como bumbo de escola de samba, o sangue fervendo nas veias… Como seria bom se estivesse à beira mar, sob a sombra amiga de umas palmeiras, a água de coco fresquinha descendo garganta abaixo. Porém não era nada disto. É, o dia lhe prometia o inferno.

Tentou ainda, por alguns minutos a mais, permanecer como estava, mas o colchão fervia insuportavelmente.

Quem mandou tomar pifão no verão, sem ar condicionado – o maldito tinha quebrado e estava na oficina – e um ventiladorzinho de merda a espalhar coisas pelo quarto, mas incapaz de amenizar a temperatura? Quem mandou ter chutado o balde da temperança, achando que aquele 20 de dezembro de 2012 fosse o último dia do resto de nossas vidas? Quem mandou ter acreditado nas previsões catastróficas do calendário maia? Seguir a cabeça do amigo? Merda! Agora estava ali, sentado na beirada da cama, os cabelos desgrenhados, os olhos ainda injetados, um bafo de anteontem a empestear o bocejo.

Miseráveis que o enganaram! Prometeu, então, nunca mais acreditar nessas baboseiras. Até a mísera poupança foi raspada para dar suporte à farra com que fechar a passagem pelo planeta, que iria entrar em colapso total no dia seguinte. E não entrou, como todos sabem e este texto posterior comprova.

Resolveu tomar um banho, pôr uma roupa e ir até o posto de urgência, consultar um especialista em ressaca alcoólica e, se possível, em ressaca moral. Estava derrotado duplamente, no plano físico e no plano espiritual.

Lá, o posto fervia de gente, com as mais diversas reclamações. Encontrou inclusive o amigo de crenças, Juventino, com o braço esquerdo todo furado. Ele próprio tentara este tipo de suicídio: aplicara cerca de vinte golpes de chave Philips no antebraço, na ânsia de encontrar uma veia e esvair-se em sangue, antes que o mundo desabasse sobre sua cabeça aparvalhada.

Aproveitou para reclamar com o amigo o fato de terem dividido as preocupações com a hecatombe que não veio e os deixou derreados.

Juventino choramingava misérias miúdas, coisa de pouca monta, tudo uma miuçalha sem serventia para a vida concreta, esta que está aí roncando à porta, exigindo tenência. Juventino era o tipo do cara fracote. Nasceu franzino, em molde de frango de granja, e nunca encorpou. Tinha suas manias, suas ziquiziras.

Já ele, não. Era praticamente um Apolo na compleição física, apenas um tanto fraco das ideias. A mãe sempre lhe dizia para não ir atrás de opiniões alheias, mas ele, volta e meia, chegava a casa com novidades de incomodar a família. Beirava os vinte e cinco anos e nunca tomara atitude na vida. Vivia de fazer pequenas coisas, sem emprego fixo, sem ocupação definida. Não terminara o antigo Segundo Grau, portanto não teria maiores chances na vida.

E, agora, ali na fila aguardando a vez, ressoava em sua cabeça a fala repetitiva de sua mãe:

– Arlindo, Arlindo, quando é que você vai tomar tenência? Quando é que você vai caçar um rumo na vida, meu filho? O tempo está passando, e você só com bobagens!

Mas Arlindo sempre pareceu um carro velho, com bateria fraca. Tinha de ser empurrado todos os dias de manhã, para que pegasse no tranco, para que o motor biológico virasse e conduzisse aquela massa corpulenta ao que fazer.

Resolvido a não crer mais em nada que não fosse a prestação a vencer e o dinheiro a que correr atrás, maldizia a besteira de achar que o mundo fosse mesmo se acabar, como a marchinha de carnaval dizia da Quarta-feira de Cinzas e o pessoal alarmista enfiara em sua cabeça. Cambada de filhos da puta, pensou entre os incômodos da ressaca.

Juventino já estava indo embora com o braço enfaixado e a cara de bunda que sempre teve. Um cara que não arranjava nenhuma mulher tinha mesmo era de ficar inventando besteira, para passar aquela merda de vida com alguma ocupação mais séria. Ele, Arlindo, estava disposto a mudar. Dali para frente, após sair do inferno da ressaca física e moral, daria novo rumo na vida. Ou tomava as rédeas de sua vida, ou teria sempre que pegar no tranco, a poder de esporro da mãe, logo cedo, assim que abria os olhos a cada manhã.

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