AS LÁGRIMAS DO BRUNO

A imagem de Bruno Fernandes, ex-goleiro do Flamengo acusado da morte de Eliza Samúdio, chorando e folheando a Bíblia, no salão do júri do fórum de Contagem, tem toda a pinta de marcação de cena engendrada pelos advogados de defesa, com o objetivo de sensibilizar.

Quem fornece o livro é um deles, que também aparece com um lenço branco, para que Bruno enxugue as lágrimas.

De longe, sentado aqui na minha poltrona em Niterói, não consegui ver as ditas lágrimas. É que, além de não ter cheiro, a tevê também não vem com índice de umidade relativa do choro.

Por um instante, conforme mostrado, Bruno folheia a Bíblia, sem que se possa dizer que, de fato, tenha lido alguma coisa. Em seguida, o outro causídico recolhe o livro de suas mãos, e tal gesto me passou a impressão de que ele, o advogado, quis evitar maiores constrangimentos, porque percebeu o caráter fake da encenação.

Bruno não está ali para ler a Bíblia. Está ali para ouvir a acusação que o Ministério Público lhe faz de mandante de um crime hediondo, cheio de desdobramentos, ou melhor, recheado de outros crimes. Está ali para ouvir o que têm a dizer os advogados que o defendem. Está ali para responder aos questionamentos previstos em júris criminais. E, finalmente, ouvir o veredicto do júri.

Sabemos que todo advogado criminalista é um ator em potencial e que todo o procedimento da sessão do júri, uma grande peça teatral.

Eles fazem seus longos, técnicos e histriônicos monólogos; encenam diálogos sucintos e ásperos com o ex adverso; apelam aos sentimentos e ao discernimento do corpo de jurados e da plateia; acusam os opositores; exaltam as qualidades de seu patrocinado, tentando tirar dele as imputações da denúncia.

Mas, nos intervalos, convivem amistosamente com todos os seus adversários. As possíveis ofensas que se fazem no calor das discussões não ultrapassam os limites do salão do júri.

Por isso é que a cena destacada pelos noticiários da tevê, mostrando o choro do Bruno, tem todas as características de um pequeno esquete teatral.

Não estou aqui dizendo que Bruno seja culpado ou inocente. Esta tarefa é do corpo de jurados de Contagem. Mas a cena é sintomática de uma grande encenação. Porém é provável até que o acusado, que sempre se mostrou com uma postura de desafio, olhar soberbo, tenha enfim avaliado o verdadeiro peso da sua situação. Contudo, se o amigo leitor fizer uma pesquisa rápida na Internet por imagens deste desgraçado jovem, dificilmente encontrará alguma em que ele aparente qualquer sintoma de arrependimento, humildade ou abatimento. Talvez, em algumas, um pouco de apreensão.

Aguardemos para ver se o choro do Bruno sensibilizará o júri e se sua leitura da Bíblia lhe terá valido a salvação.

Advogados observam enquanto o goleiro Bruno chora durante sessão no Fórum de Contagem (Foto: Pedro Triginelli/G1)

Imagem em g1.globo.com.

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