FUI ASSALTADO POR UM HOMEM COMUM

Imagem em significadodesonhos.net.

 

Fui assaltado ontem, às 8h30, em frente ao Santuário das Almas, por cidadão desalmado, certamente. Mas eu também não tenho alma. Sou oco.

Esta não foi a primeira vez.

Da primeira, na Rua Barão de Amazonas com Avenida Amaral Peixoto, há cerca de uns oito-dez anos, fiquei mal, física e psicologicamente. Tive tremores e sonhei durante alguns dias com aquela situação. Se tivesse uma arma naquele instante, teria matado os dois rapazes, com certeza, pois o ódio que eles despertaram, por me reduzir à dolorosa condição de mero pó de cocô de cavalo de bandido, foi gigantesco.

Outras três ou quatro vezes, sofri tentativas de assalto, a que reagi até de forma desassombrada, exigindo que o cidadão meliante apresentasse a arma que dizia portar. Não apresentaram, não levaram meu dinheiro e meus pertences.

Desta vez, porém, não quis pagar para ver. Estava com o vidro do carro abaixado, pois o ar condicionado não funcionava. Ele tinha acabado de assaltar uma mulher loura, na calçada à direita da rua, e veio em minha direção. O trânsito parado, fui vítima impotente.  Ele disse que estouraria meus miolos, caso tentasse dar a partida no carro. Dei-lhe o dinheiro que tinha e segui adiante.

Contudo não fiquei mal como da primeira vez. Acho que estou mais anestesiado.

Este é o país que construímos. Nascemos aqui, vivemos aqui e sofremos as vicissitudes do que se fez durante anos e anos.

E posso garantir que não é a pobreza que produz este tipo de violência. Pobreza não é sinal de falta de ética, de caráter, de princípios. Sou filho de família pobre do interior.

O país já vem mergulhado numa crise de valores há muito. As leis não se aplicam e, além disso, são extremamente benevolentes. Parece que o Estado não quer arcar com o ônus de deter os que infringem as leis e inventa todo tipo de pena alternativa, de redução de pena, de progressão de pena, de não aplicação de pena de até quatro anos, porque economicamente não vale a pena, com perdão do trocadilho. E nossas escolas se tornaram impotentes diante da incúria geral que vem de cima, das autoridades maiores.

Assim o cidadão fica à mercê desses fatos.

Meu amigo Rogério Andrade Barbosa, hoje escritor premiado, foi voluntário da ONU na Guiné-Bissau na década de 70. Lá encontrou uma situação econômica muito pior do que a nossa, mesmo à época, e me relatava que a violência era nula. Não havia casos de assaltos, atentados, mortes. Portanto não é a pobreza a geradora deste tipo de comportamento.

Estamos sofrendo de uma doença social grave há décadas e nossas autoridades tomam medidas que se fazem inócuas. Primeiro, porque não combatem as causas. Depois, não conseguem minimizar as consequências.

Quanto mais o governo faz propaganda de que milhões de brasileiros saíram da zona da miséria, da faixa de pobreza, mais se repetem tais casos, que já chegaram às pequenas cidades do interior.

Não estou choramingando, vez que reagi muito melhor a este evento. Mas sabemos que esses casos têm-se multiplicado enormemente em nossa cidade, sobretudo na região de Icaraí, onde moro.

Por isso é que, cada vez mais, ficamos refém em nossas próprias casas, com receio de sair e sofrer tal tipo de agressão, que parece nos dizer que não valemos nada, que não somos ninguém, pois, ao menor movimento brusco, nos transformamos em mais um dado para a estatística tenebrosa da violência urbana.

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