OS APUROS DO PASTOR

Duas coisas há de pior para a vida de uma pessoa. A primeira, caso essa pessoa seja homem, casado, com cargo político, e se descase, é a ex-mulher. E Celso Pitta não está aí para me desmentir. A outra é o cara ser um desconhecido nacional, detentor de cargo eletivo, e chegar a ser indicado para a presidência de uma comissão legislativa qualquer. Neste caso, é a tal opinião pública. Que também é feminina, como ex-mulher.

O desconhecido pastor Marco Feliciano “levava uma vida sossegada, gostava de sombra”, dízimo e cartão de crédito de fiel. Pois só for ser eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos, que começaram a pôr seus podres para fora.

Bem feito para ele! Se tivesse ficado no seu canto, seu racismo, sua homofobia, sua predileção preferencial pelos dízimos dos fiéis, seus possíveis deslizes éticos não seriam hoje discussão nacional.

Até mesmo sua mansão em Orlândia, interior de São Paulo, muito parecida com um bunker, estaria estampada em folha de jornais. Ninguém estaria dizendo que as informações sobre o irreal valor da casa – 60 mil reais – feito à Justiça Eleitoral seriam suspeitas.

Ninguém estaria sabendo, por exemplo, que ele foi viciado em cocaína, na juventude. Nem que é filho de uma relação extraconjugal de seu pai, tendo sido criado apenas por sua mãe.

Tudo isso estava dormindo sob as cinzas frias da indiferença nacional, até que ele foi indicado para a tal comissão.

E o mundo caiu sobre sua cabeça. Manifestações contrárias à sua indicação – e agora à sua permanência na presidência da Comissão – se multiplicam país afora.

O problema todo começou com sua eleição a deputado federal e culmina agora com esta eleição entre seus pares – todos os deputados que votaram nele são da bancada evangélica. Talvez seus eleitores também o sejam.

De nada adiantaram os protestos de alguns deputados da Comissão, de nada estão adiantando os protestos e os abaixo-assinados. Ele parece inamovível na convicção de que é o homem certo, no lugar certo.

O Congresso tem mostrado isto ao povo: lá quem manda são Suas Excelências. E a gentalha pode gritar, espernear, que eles não estão nem aí.

 

A mansão do pastor em Orlândia, segundo informado por oglobo.globo.com.

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