BAIXAR OU NÃO BAIXAR A TAMPA DO VASO

Certa vez vi, estarrecido, na tevê um jovem inglês, ao lado do pai, dizendo que abaixava a tampa da privada toda vez que a usava, em respeito a sua mãe. E que tinha aprendido isso com o seu pai, aquele inglesão orgulhosão – acho que já calibrado em algumas doses de legítimo scotch –, ali ao lado daquele filho respeitador.

Vamos e venhamos! A que ponto chega a cretinice humana! Isso, por acaso, representa sinal de respeito?

E essa história de abaixar a tampa passou a ser um tabu. Uma marca machista da pior espécie, ao contrário, é deixar a tampa levantada. O homem que deixa a tampa do vaso assim é um ser menor, mesquinho, de baixa extração, praticamente um troglodita.

– Cantídio, por que você deixou a tampa do vaso levantada?

Até que Cantídio um dia se rebela e, em nome do princípio constitucional da igualdade entre as pessoas em todos os campos, grita para a mulher:

– Etelvina, por que você deixou a tampa do vaso abaixada?

Eu mesmo tive uma colega de curso de Letras, lá pelo final dos anos 60, revolucionária em quase todos os sentidos, que, contando sobre a oferta de lugar num ônibus feita, certamente, por um cavalheiro, revoltada lhe disse:

– Aí cara, somos iguais! O que você tem pra fora eu tenho pra dentro!

E só não mandou o homem enfiar o lugar no banco naquele lugar da anatomia humana retroposicionada, porque ainda lhe restou um pouquinho de conservadorismo herdado de seu pai. E seguiu a viagem em pé até o fim.

Pois foi pensando nessa igualdade de fora/dentro que Cantídio passou a exigir em casa que Etelvina levantasse a tampa, assim que terminasse suas necessidades fisiológicas previstas nas convenções humanas mais corriqueiras. Do mesmo modo que ela fazia com ele.

Temos tido umas crenças que não se sustentam a um mínimo olhar irônico, a um chiste, quanto mais a uma análise mais circunstanciada. Temos inventado uma série de regras, de posturas, para o ordenamento social que parecem completamente fora de propósito.

A Igreja Católica está às voltas com a eleição de um novo Papa, após a renúncia de Bento XVI; o Reino Comunista da Coreia do Norte está doidinho para destruir a decadente civilização judaico-cristã; o Guido Mantega não acerta uma previsão econômica à frente do Ministério; São Paulo enlouquece com os temporais de fim de tarde, e Cantídio e Etelvina ficam discutindo a correção ou não de se levantar ou de se baixar a tampa do vaso sanitário. Façam-me o favor!

A proposta revolucionária que lanço aqui é a seguinte: cada um faz a parte que lhe compete e vida que segue!

Cantídio abaixa ou levanta a tampa a seu bel prazer. Etelvina levanta ou abaixa a tampa, segundo lhe dê na telha.

Vamos parar com esse tipo de picuinha, que pode acabar desestabilizando a harmonia da sociedade humana, pô!

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