NEIL YOUNG, A AUTOBIOGRAFIA

Terminei de ler A autobiografia, de Neil Young.

Neil Young é um dos meus músicos prediletos. Tenho vários CDs dele e com ele, e alguns DVDs. Quando vi seu livro numa banca da Saraiva, comprei de imediato. Li-o vagarosamente.

Não é um livro em registro cronológico. Ele escreve ao sabor do momento, sobre o que faz naquele instante e as memórias que o assaltam. Fala, sobretudo, de sua relação com a música, os músicos e o meio musical. Mas também fala de projetos paralelos que desenvolve com uma teimosia gigante, como o do automóvel movido a energia elétrica e um novo sistema de gravação e veiculação de música – PONO –, que reproduza com mais fidelidade o que o artista cria, a fim de que o ouvinte possa chegar o mais próximo possível da experiência do autor. Fala também de si, de seus amores, de sua família, de seus filhos e muito dos seus amigos.

Transcrevo, a seguir, alguns parágrafos de seu livro, para que o amigo leitor possa ter dele uma amostra.

1. “Cerca de vinte anos mais tarde, em meados dos anos 1990, [David] Briggs e eu estávamos fazendo um álbum. Ainda chamo de ‘álbum’ porque era isso o que eu fazia. Eu não faço CDs nem faixas de iTunes. Faço álbuns. É exatamente isso. Chame do que quiser. Lembro como eu odiava o shuffle, recurso aleatório do iTunes, porque fode com a sequência que eu passei horas elaborando. Na minha opinião, faixas independentes e aleatórias são um horror. Podem me chamar de antiquado. Faço álbuns e quero que as canções se combinem para criar um sentimento. Faço de propósito. Não quero  as pessoas ‘beliscando’ os álbuns. Gosto de escolher os singles. Afinal, essa merda é minha.” (p. 334)

2. “Conheci Linda [Ronstadt] no Troubadour, nos anos 1960, quando ela cantava com os Stone Poneys. […] Era um terremoto. Ela estava sempre no topo, mas agora Linda se tornou um tanto reclusa. Parou para criar sua família e viver uma vida ‘normal’ no mundo real. Uma vez, ela usou ‘mundo real’ para me descrever. Disse a Nicolette [Larson] para não se envolver comigo porque eu não vivia ‘no mundo real’! Não importa, porque Nicolette e eu tivemos um relacionamento firme durante algum tempo. Não durou muito, no entanto. A vida é assim.” (p. 338)

3. “[…] Toquei ‘Sweet home Alabama’ naquele show, e o pessoal adorou. (Minha canção ‘Alabama’ mereceu a chance que Lynyrd Skynyrd me deu com seu ótimo disco. Não gosto da letra quando ouço hoje. É acusatória e condescendente, não inteiramente elaborada e muito fácil de ser interpretada de forma errada…)” (p. 341)

4. “Uma vez, no auge da tensão em Sunset, pouco antes de Stephen [Steels] escrever seu clássico ‘For what it’s worth’, fui parado e posto em cana por não ter carteira de motorista. Meu amigo Freddy Brechtel, um cantor sem banda, estava comigo e levou o carro de volta até minha casa. Fui preso na subestação de Hollywood, bem ao pé do morro onde ficava a Whisky. Quando eu estava na cela, um dos guardas me chamou de hippie fedorento. Ele usava óculos de aro de chifre. Gritando de volta, eu disse que ele parecia gafanhoto. Ele entrou na cela e me deu uma bruta surra. Socou minha cara e me chutou pelo chão. Foi traumatizante.” (pp. 348/349)

5. “Eu mesmo já não bebo mais, estou indo em frente. Não afirmo que não vou beber nunca mais. Não estou fazendo nenhuma promessa, mas não acho que sou um bom bebedor. Alguns caras são ótimos, bebem, contam piadas, riem até cair e ficam engraçados como o diabo. Enterramos um desses na semana passada. A vida não passa de um grande teste; se você tentar demais, fracassa. Se você não tentar muito e fracassar um pouco, mas se divertir, talvez já seja um sucesso.” (p. 362)

6. “Meu cérebro tem um monte de coisas a mais que só da para ver numa ressonância magnética. Não sei o que é, ou o que não é, mas conheço a história de meu pai. Ele era escritor e ficou doido, demente. Que diabo era aquela porra nevoenta no meu cérebro? Gostaria de nunca ter visto aquela merda. De qualquer modo, sempre me aconselharam a parar de fumar maconha, e eu parei. Na verdade, escrevi esse maldito livro inteiro, direto. Certamente é um dilema.” (p. 378)

Notas finais:

  1. A gravação de Words (Between the lines of age), no disco Harvest, seu quarto álbum solo, de 1972 pela Reprise, tem um dos mais belos solos de guitarra, no meio da música. Sua guitarra começa a gemer baixinho ao fundo, até gritar desesperadamente no primeiro plano da música. Aliás, o álbum é, na minha opinião, um dos melhores – senão o melhor – de sua carreira.
  2. A polêmica que parecia existir entre Neil e a banda de Alabama Lynyrd Skynyrd, por causa da música Alabama do bardo canadense, parece que nunca ocorreu, como se pode observar na menção rápida, que destaquei no item 3.
  3. YOUNG, Neil. A autobiografia. São Paulo, Globo Livros, 1912. [Tradução Renato Rezende e Helena Londres].

A capa do livro.

3 comentários sobre “NEIL YOUNG, A AUTOBIOGRAFIA

  1. Pedro

    O ponto número 1 é um resumo sentimental dos amantes de discos concebidos como uma obra. Um livro, um filme, uma pintura. Deles não se pode tirar um fragmento aqui e ali e achar que vc tem a obra. Nem todos os discos são concebidos assim, a maioria não o é, mas deve ser mesmo uma punhalada para os autores, como N.Young, que pensam no todo.

    1. Saint-Clair Mello

      Sempre tive o hábito de tocar todo o disco, pois sabia que iria gostar dele por inteiro. Neil Young sabe do que fala.

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