A VIÚVA DO DIABÉTICO

Sempre que vejo a viúva daquele contador diabético, ponho minhas hipotéticas barbas de molho. Ou melhor, minhas taxas de glicose de sobreaviso.

Vim morar no condomínio, mais ou menos na mesma época em que ele e sua mulher vieram. Ela me parecia costumeiramente de maus bofes, vivia de cara fechada, não cumprimentava ninguém e andava dois passos à sua frente, o que figurava certa vergonha por estar acompanhada por um homem sem nenhum charme, que ela suportava arrastar como um fardo.

Aos poucos, a diabetes que o tomara começou a fazer estragos visíveis, e ele ficou cego.

Já aposentado, sem enxergar, passou a depender ainda mais dela, para que decorasse os trajetos a fazer no condomínio e em seus arredores. Então ficou mais patente o incômodo que ele lhe causava. Deste modo, a distância para ele, bengala tateando as pedras portuguesas do chão, alargara para quatro-cinco passos.

Não demorou que morresse.

Pior para ele.

Foi só o pobre homem dar baixa à cova fria da contabilidade humana, para ela apavonar-se. E a carranca que carregara por anos se transformou numa simpatia quase invasiva, sobretudo com os homens.

Com frequência está indo à praia em maiôs coloridos, cuja parte superior fica visível acima da saída de praia, que ela fixa à cintura por um nó caprichado, deixando entrever a lateral da perna já um tanto marcada por linhas roxas de um balancete deficitário.

Hoje, à saída do prédio, coincidiu que a encontrasse, e lhe fiz a gentileza de segurar o portão. Ela agradeceu com um sorriso – que jamais dava quando casada com o marido diabético – e seguiu em frente, serelepe, chapelão sobre a cabeça, os braços balançando com certo frenesi.

Fiquei olhando, retardado pelo meu passo mais lento, a saliência da viúva.

E tratei de marcar novo exame com o endocrinologista, para controlar essa maldita glicose que está tão saliente quanto a viúva. Só que ela – a glicose – acaba por me derrubar, depois que andar extirpando extremidades do meu ser, se meus cuidados não impedirem uma maldita diabetes se instalar, de modo definitivo, em minha pessoa.

Não iria gostar nadinha de ver – isso se meu fantasma também já não estiver cego –, lá do além, minha mulher saindo toda se querendo, maiô colorido com estampas florais, assessorado por uma canga de oncinha, a frequentar as areias da praia aqui em frente, cujas águas, por poluídas, não oferecem a mínima condição de um banho.

Ficheiro:Gustav Klimt 039.jpg

Gustav Klimt, Judith I, 1909 (em pt.wikipedia.org).

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NOTA: Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, diabéticas ou sãs, terá sido infeliz concidência.

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