O LUCRO DO PÃO VAI COM O TRESOITÃO

Meu amigo Dino, proprietário da oficina de lanternagem e pintura a que, quando em vez, acorro para solução de problemas, contou-me dia desses que também já foi dono de padaria.

O assunto surgiu porque eu observava dois rapazes carregando cestos de pães em duas motos, ao lado da padaria onde tomamos um cafezinho, sempre que vou até seu estabelecimento de desamasso e pintura, e comentei sobre o lucro certo que é fazer pão. Há pouquíssimas pessoas que não comem pão. E mais de uma vez por dia!

Contudo, quando ele me fez essa revelação inusitada, dei uma boa gargalhada, já que o conheço há, pelo menos, uns trinta anos sempre cuidando de carros amassados. Meu filho, que tinha ficado um pouco para trás, não entendeu o motivo da graça, o que me fez repetir para ele a confissão do Dino. E nós três rimos da situação.

Para me responder sobre a época e as circunstâncias em que isso se dera, ele disse ter acumulado a função de empresário do ramo de lanternagem e pintura com a de confecção de pães e roscas, por dois anos. Às vezes, para suprir a falta de alguém nos momentos de maior movimento, corria da oficina para a padaria e atendia os pedidos com as mãos ainda sujas de graxa. E teve de ouvir reclamações de clientes nervosos.

– No primeiro ano, eu passei sendo assaltado quase toda semana. No segundo, passei indo à macumba, no Rio, toda sexta-feira, para tentar vender a maldita padaria.

Depois de muito sofrer com assaltos, resolveu comprar um revólver, com a intenção de resistir à bala a qualquer nova ação dos bandidos. Guardou o tresoitão na gaveta da mesa do pequeno escritório, atrás do salão de atendimento ao freguês.

Certo dia, lá pelas oito horas da manhã, ao chegar à padaria já encontrou um novo assalto se desenrolando. Um bandidão gordo estava no salão, coordenando as ações, ferro na mão, dando ordens a que todos ficassem parados.

A despeito disto, foi entrando, já pensando em se dirigir até a mesa, pegar seu revólver e voltar para dar um tiro naquele ladrão miserável. Mas foi recebido, logo que passou a porta, por outro mais furioso, que lhe disse:

– Porra, isso aqui é um assalto! A gente não está brincando! Volta pra lá!

Ele voltou e viu, impotente e revoltado, a féria do dia anterior ser levada mais uma vez.

Assim constatou que a arma não lhe valera de nada.

Por isso, foi apelar para as potências celestes, a fim de se desfazer daquele negócio podre.

E ficou um ano inteiro arriando despacho, fazendo obrigação, batendo cabeça, até que apareceu um maluco e lhe comprou a padaria, da qual se despediu sem a mínima saudade e salvando apenas o que tinha gasto com sua aquisição.

Fora, é bem verdade, toda a grana que torrou para pagar ao pai de santo pelos trabalhos feitos.

Ao fim da conversa, rindo, confessou que tinha muita vontade ainda de dar um tiro no bandidão gordo, só pelo jeito abusado com que dava as ordens no salão, como se fosse o dono do estabelecimento panificador.

 

Padeiro e aprendiz (ilustração medieval)

 

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