O DIA DO TRABALHO

Hoje acordei disposto ao trampo, ao trabalho. Só para justificar a data: Dia do Trabalho.

Na qualidade de aposentado, isso pode ser considerado uma recaída, uma recidiva. Como ocorre com algumas doenças peçonhentas, tipo dengue.

Nunca acordei assim em toda a minha vida. Sempre tive uma ligação profunda com o espírito caymmíco de ser, aquele que estende a rede à sombra e fica olhando o sopro da brisa balançar suavemente as folhas dos coqueiros, enquanto se bebe uma cervejinha gelada. Reconheço que é bom, mas alguém tem de fazer o pão para o café da manhã, não é mesmo?

Mas, enfim, há certas ocasiões em que não controlamos nossos mais sinceros impulsos. Por isso, acordei disposto ao trabalho. Vou carpir um eito de lavoura, carregar umas caixas de tomates no ombro lá no CEASA, quebrar umas pedras a poder de marreta, castrar boi bravo no macete, virar massa para concreto na comunidade, debulhar uma quarta de milho à mão. Sei lá! Alguma coisa que possa aplacar essa minha inesperada disposição.

Talvez isso tenha brotado do fundo da minha pessoa, para corroborar aquele velho ditado – não sei quem o disse, deve ter sido um industrial, um fazendeiro ou um grande comerciante – que afirma que o trabalho dignifica o homem.

Na verdade, o que dignifica o homem é o salário. Ou melhor, um bom salário, daqueles polpudos, que nos fazem cair na faixa de 27,5% do imposto de renda. O resto é tentativa de iludir nosso viver no mundo.

Lembro-me, nesse momento, de um colega de trabalho, Ricardo, botafoguense como eu, que disse certa vez – isto há cerca de trinta anos – que o maior sonho dele era pagar imposto de renda. Fiquei espantado, mas ele justificou que não aguentava mais ganhar pouco, ser isento. Queria ganhar muito, até o ponto de ter de pagar imposto de renda. Acabei concordando com ele. Realmente, o salário dignifica o homem.

Assim, ponderando entre essa lembrança do que me disse Ricardo e a minha estranha vontade de partir para o trampo, resolvi me espichar no sofá da sala, ligar a tevê num programa de peixinhos de aquário e esperar a vontade passar. Porque não posso trair o que trago de mais querido dentro da minha pessoa: meu espírito do dolce far niente.

Por ironia, no Dia do Trabalho, quase ninguém trabalha. E eu sou um desses.

 

Cândido Portinari, Café , 1934-1935 (em portaldoprofessor.mec.gov.br).

 

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