VÁ A MINAS, MAS FAÇA UM EXAME DEPOIS

Vou fazer uma sugestão ao governo de Minas Gerais: colocar pórticos nas entradas das fronteiras do estado, com uma inscrição do tipo: Bem-vindo a Minas Gerais, só não podemos garantir a civilidade de suas taxas ao partir.

É que Minas é um atentado à normalidade de nossas mais comezinhas taxas de colesterol, triglicérides e glicose. Em relação especificamente à glicose, parece que não há ninguém lá que lute contra o fantasma da diabetes: é praticamente impossível encontrar alguma coisa diet em Minas!

Em qualquer restaurante, por mais simples que seja – e boa parte das pequenas cidades mineiras só têm restaurantes simples – é uma orgia de colesterol, representado magnificamente por carne de porco – frita, cozida, assada, refogada, grelhada, pururucada (Oh, céus!) –, linguiças, chouriços, torresmos, peles as mais diversas, feijoada, feijão carregado, feijão tropeiro, tutu à mineira. Tenho a impressão de que até o jiló e o chuchu refogados, que ficam com aquela carinha de santo sobre o fogão a lenha de quase todos os restaurantes, são agentes gordurosos infiltrados. Nem mesmo eles podem ser tomados como inocentes, neste quesito. A couve mineira, então, não deixa dúvidas: sempre com pequenos pedacinhos de toucinho de fumeiro – bacon em Minas é tido como odioso anglicismo – não pode ser considerada isenta.

Agora, suspeitíssima mesma é a alface picadinha, que eles colocam disfarçadamente ao lado de panelas de pedra ou de barro, abarrotadas de costelinha de porco fritas de dar dó do bichinho. Com aquele jeitinho suspeito, está ali para dizer ao comensal: vá com fé, que a fé te pode salvar.

Eu, quando vou a Minas, como nesses últimos três dias – cheguei de lá ontem -, vou incógnito em relação ao meu endocrinologista. Ele, às vezes, me pergunta se tenho a intenção de visitar o estado, e eu, com indisfarçável cara de pilantra, tenho de prometer que jamais porei meus pés nas Minas Gerais. Por tudo que é mais sagrado! Isto é, o tal resultado do exame que, a cada quatro meses, ele me exige, a fim de saber por quanto tempo ainda minhas veias suportam a carga de gordura que meto para dentro.

Como sou pessoa extremamente zelosa neste aspecto, sobretudo com os índices de glicose – não quero acabar esquartejado em vida, por conta de uma maldita diabetes –, para desfazer as bolas de gordura que, por acaso, possam acumular-se em minhas entranhas, inicio sempre os trabalhos sorvendo alguns goles da boa cachaça que se produz naquela terra. Como aconteceu em Pequeri, no almoço de sexta-feira. Diante de uma panela de pequenos e suculentos pedaços dourados de carne seca, senti que alguma coisa me chamava a um prazer maior. E pedi ao simpático gerente do restaurante, Renato Marconato, aquela que salvou o guarda e toda a corporação. Ele, então, sacou de um litro anônimo, sem a mínima indicação de inspeção sanitária, um líquido de cor ligeiramente âmbar, produzido na região, apetrechado de todas as indicações para destruir a concentração lipídica que pudesse prejudicar a saúde do turista.

E comi sem culpa, no sistema “preço fixo, coma o que puder”.

No fundo, no fundo, creio que o nosso maior risco é comer com culpa. E isso não há em Minas Gerais. Caso contrário, é melhor você nem pôr os pés lá!

Imagem em lounge.obviousmag.org.

3 comentários sobre “VÁ A MINAS, MAS FAÇA UM EXAME DEPOIS

  1. beto

    Mais é sem dúvidas uma delícia ímpar uma tentação ao pudor gastronômico, eu quando viajo a Minas uma das coisas que mais gosto além das pessoas maravilhosas, e o cenário simples e belo, a comida me encanta, como bastante como vc mesmo disse sem culpa rs. Uma delicia Minas Gerais, um orgulho para nosso Brasil este estado tão magnífico. RICO!!!

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