MEMÓRIA RICA DE OURO PRETO

Em julho de 1974 conheci Ouro Preto. Esta história está mais ou menos contada na crônica Devo ter sido inconfidente, publicada aqui em Gritos&Bochichos (clique no título para vê-la).

Hoje, estranhamente, acordei um tanto saudoso daquela minha primeira vez na cidade mineira. E me voltou à memória um fato engraçado.

Fui à cidade com Jane, então minha namorada, e os amigos Rogério Barbosa e Eduardo Campos, a bordo do fusca que atendia pelo nome de Acidentes do Parto, de propriedade deste último.  Ficamos no Camping Club do Brasil, um pouco antes de chegar à cidade. Rogério era o sócio do CCB e tinha duas barracas, uma maior, em que os dois ficaram, e uma pequena – que dizíamos ser a barraca do cachorro – em que eu e Jane dormimos.

Também lá estava outro grupo de jovens que incluía um francês, pela primeira vez no Brasil.

Por essa época, Ouro Preto, efervescente cidade universitária, sediava o Festival de Inverno, manifestação estudantil a tentar fazer certa resistência pacífica à ditadura militar, no auge do obscurantismo sob a vigência do famigerado AI-5. Na praça principal, a Tiradentes, reinava sombriamente um caveirão da polícia política DOPS, como a avisar a todos: “Estamos de olho”.

Uma dos eventos do Festival era a apresentação dos músicos baianos do Bendegó, liderados por Gereba. O grupo havia lançado um elepê – Bendegó/Gereba – com relativo sucesso entre os alternativos. Eu mesmo, que não sabia bem o que era, mas apaixonado por música, tinha – e tenho – a bolacha em minha coleção.

Fomos à noite ao Teatro Municipal Casa da Ópera, um belo prédio colonial restaurado havia pouco, para o show do Bendegó. Ficamos no mezanino, de frente para o palco.

O francês e suas amigas foram conosco, e me sentei ao lado dele, porque do grupo era o que arranhava melhor a língua de Descartes, a fim de lhe dar um suporte ao que ocorria durante o espetáculo.

Faziam parte da banda baiana, além de Gereba, seu primo Zeca, na viola e no violão, Vermelho, nos teclados, Capenga, na bateria e no bandolim, e Djalma Correa, já um nome de certo prestígio na percussão, fato este que destaquei para o francês ao meu lado.

Embora estivesse frio, Djalma Correa estava sem camisa, exibindo um físico de nordestino esfaimado, as costelas a se desenharem ao longo das laterais do tronco magricela, cabelos black-power, barbicha embaraçada, e a pantomima clássica dos percussionistas, a se destacarem, às vezes, mais que o restante da banda. Era moda os percussionistas se portarem histrionicamente.

Em determinada música, Djalma Correa assumiu a frente do palco, pegou uma meia cabaça gigante, apoiou-a sobre o tronco, que ficou todo encoberto. Era cabaça demais, para pouco tronco! Postou as mãos lateralmente, segurando o instrumento, e a música teve início. Ficou por alguns minutos parado, até que chegou sua vez do grande solo da noite. Singelamente, tamborilou com os dedos das duas mãos, alternadamente, um sonzinho miudinho, mixuruca, inexpressivo, em nada condizente com toda a presepada que ele armou na cena, nem com o tamanho da cabaça, parecendo apenas justificar a presença do único músico conhecido ali, naquela noite fria de julho.

– Turutu-tutu! Turutu-tutu! – soou suavemente o barulho feito por ele na grande cabaça.

Ficamos esperando mais e não veio!

O francês, do alto de sua presunção civilizada de francês, exclamou espantado:

– Très sophistiqué! Très sophistiqué!

Duda, Rogério, Jane e eu, então, soltamos uma sonora gargalhada com a observação dele. E só não fiquei constrangido com o desempenho do meu compatriota, porque o francês era très sophistiqué aussi.

 

Interior do Teatro Municipal Casa da Ópera, Ouro Preto-MG (imagem em oglobo.globo.com).

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