COISA EM QUE EU CUSTO A ACREDITAR

Como brasileiro e como quer o governo, não desisto nunca. É que dificilmente começo alguma coisa de que não possa desistir. Como acreditar, por exemplo.

E vejam, leitores amigos, que tenho cá minhas razões. Vi no JB online notícia de que as mudanças propostas para o ICSM podem piorar o sistema vigente.

Acredito que sejamos capazes de piorar uma coisa que já está ruim! Tenho essa convicção.

Mas esta é a nossa sina. É só ver o que tem acontecido com a saúde e a educação pública. A cada ano, elas pioram gradativamente, como se não houvesse um fundo para tais poços.

Lembro-me que, durante a ditadura militar, tomava cerveja no balcão do bar na esquina da Moreira César com a Pereira da Silva, de propriedade do amigo madeirense José Fernandes. Na época, tinha lá meus trinta e tais anos. Ao meu lado, estava um senhor, com a idade que tenho agora. Também ele bebia sua cerveja. Chega ao balcão um jovem e entra na conversa, que girava em torno de medida tomada pelo governo da época. Do alto de sua inocência, ele disse que não era possível que as coisas piorassem ainda mais.

O senhor ao meu lado, então sorrindo e do alto de sua experiência, disse:

– É, meu jovem, você não sabe como eles podem conseguir piorar o que já é ruim!

Essa é uma das nossas mais proverbiais capacidades: piorar o ruim. O brasileiro, aliás, é bem conhecido por fazer justamente o oposto do recomendável. Quantas vezes, por exemplo, já vi fregueses de lanchonete lançarem no chão o papel usado para comer o salgadinho, exatamente ao lado da lixeira.

Tenho a impressão de que essa nossa indolência é atávica, coisa de gerações e gerações predecessoras, vindas talvez pratrasmente da Alta Idade Média.

Chico Anísio é que caracterizava o brasileiro como aquele cara que, diante de uma placa pendurada na porta com a inscrição “ENTRE SEM BATER”, ele bate, mas não entra.

Piorar por piorar, outro exemplo, é o que o Congresso Nacional fez com o pagamento dos royalties do petróleo para os estados produtores. Os maiores beneficiados serão os não produtores. Contudo este tipo de raciocínio está muito na linha das diversas bolsas que o governo distribui por aí. Que têm lá seu mérito social, mas são dádivas, que estão permanecendo, sem que haja providência paralela, a fim de criar condições a que não seja necessário distribuir donativos.

Não sei se todos conhecem a música de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, Vozes da seca, em que o Rei do Baião canta logo no início:

“Mas doutô uma esmola a um homem que é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

Com a nova regulamentação do ICMS, de que não tenho a mínima ideia – porém nem é preciso –, vocês podem ter certeza de que as coisas vão piorar, pois isto está escrito. E aí os prejudicados é que se virem nas instâncias judiciais, para manter a situação como está.

Porque pior, só o Brasil não ganhando essa Copa fajuta que a FIFA bolou para arrecadar um troco aqui no Patropi.

Mas nisso eu acredito piamente!

 

Paulo Gracindo no papel de Odorico Paraguaçu (imagem emtvg.globo.com).

 

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