RESSUSCITAMOS OS VÂNDALOS

As atuais manifestações, país afora, contra um monte de mazelas da vida nacional – a começar pelo preço das passagens dos transportes públicos –, acabaram por ressuscitar entre nós os vândalos, antigo povo de origem germânica que aprontou o que pôde no princípio desse calendário que vivemos.

Eles – os vândalos – deram um trabalho danado ao Império Romano, a que se aliaram em determinado momento da história e a que se opuseram ferrenhamente, inclusive invadindo Roma e destruindo muito do patrimônio histórico e artístico da cidade, no século V d. C.

Por essa ação, o nome deste povo passou a designar os depredadores do patrimônio público.

Pois não é que, a cada manifestação, surgem remanescentes desse povo que, de tanto vandalismo, acabou vandalizado, subjugado e destruído na primeira metade do século VI!

Ouvem-se condenações de todos os lados às ações de tais manifestantes. Tenho a impressão de que até mesmo os que praticaram essas ações no dia anterior, se entrevistados, de cara limpa diante da tevê, condenarão tais ações. Elas não são belas de se ver, embora previsíveis. Ao se juntar a quantidade de gente nessas oportunidades, sempre haverá os que levarão suas ações ao máximo do radicalismo.

Na verdade, a destruição do bem público terá sua recuperação paga pelo dinheiro público, que não é senão o meu, o seu e o nosso. O deles também. Porém, talvez, isso eles não percebam.

Se reclamamos que os hospitais e as escolas estão à mingua, se a rua está enlameada e sem serviços básicos de água e esgoto, tudo continuará um pouco mais assim, porque, antes, haverá a desculpa de se recuperar o que foi destruído. Isto se fará mais emergencial para a autoridade.

Por outro lado, a volta do preço das passagens aos valores anteriores, em várias cidades pelo país, se fará também à custa de outras necessidades, conforme nossas autoridades afirmaram. O governador de São Paulo e o prefeito da capital foram claros quanto a isso. Também o alcaide do Rio de Janeiro. É como se dissessem:

– Querem que tiremos os centavos do aumento? Pois tiraremos. Mas o dinheiro do hospital, da escola, do saneamento, ficará prejudicado. Mas é isso que vocês querem, está bem!

Tudo falaz, capcioso, politicamente capcioso. Mas é mais ou menos assim que se faz a política no país. A autoridade finge que nos atende. Utilizando os recursos que nos são devidos.

Até mesmo as agências de banco vandalizadas entram nessa conta. É só aumentar a taxa de juros do cheque especial e do empréstimo consignado, que também pagaremos pelo que foi feito. O preju ficará por nossa conta.

E os vândalos, que ressuscitamos nesses movimentos, pagarão também igualmente a qualquer um de nós, que queremos mudanças, mas sem que tenhamos de pagar ainda mais. Sobretudo pelo que quebramos ou destruímos.

Ficheiro:Heinrich Leutemann, Plünderung Roms durch die Vandalen (c. 1860–1880).jpg

Heinrich Leutemann, Pilhagem de Roma pelos vândalos, séc. XIX (imagem em pt.wikipedia.org).

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