LÍNGUA ESTROPIADA

Começa que depauperado não é o cara que fez cirurgia de fimose.

E aí as pessoas vão confundindo as coisas, usando as palavras de qualquer maneira, sem pensar um pouco. Esquecem-se de que o pensamento precede a expressão. Então é preciso refletir, antes de abrir a boca e deixar sair uma enxurrada de besteiras.

Tive uma colega de trabalho que fingia ter feito Direito – ou, de fato, teria feito, só que nas coxas – e se metia a falar difícil, a usar frases feitas, expressões consagradas, completamente deslocadas do contexto ou, simplesmente, misturadas. Nessas oportunidades, sempre que ia soltar uma pérola, ajeitava os óculos, como que a conferir autoridade no que diria. Ouvi-a, por exemplo, dizer que certo fato era “o inferno de Cervantes” e que uma atitude temerária de um colega, em prol da categoria, havia sido uma “atitude pixotesca”.

Há pessoas que ouvem o galo cantar, sem saber onde. Querem colher o ovo, antes que a galinha o ponha.

A língua dever servir como instrumento de comunicação. Já dizia Chacrinha, o grande filósofo da televisão brasileira (Hahaha!), que quem não se comunica se trumbica.

Há pessoas que falam, falam, falam, e, no final, você diz: Hã? E lá se foi todo aquele caudal verborrágico pelo ralo abaixo.

Por outro lado, a sabedoria popular diz que em boca fechada não entram moscas, num sério conselho a que nos mantenhamos calados. Ou, pelo menos, que falemos o menos possível. Como recomendado nos ônibus: só o indispensável.

Contudo falar só o indispensável pode ser muito pouco, muito lacônico, conciso.

Pode não parecer, mas eu sempre tive um grande pendor pela economia das palavras. Certa vez, a professora de Literatura Francesa, no Instituto de Letras da UFF, pediu que respondêssemos às questões da prova sobre determinada leitura de um livro, com concisão. Ao trazer a prova corrigida, verifiquei que ela me tirara dois pontos, embora minhas respostas tivessem tocado os pontos certos. Reclamei. Ela alegou que as respostas haviam sido muito curtas.

– Mas a Senhora pediu concisão!

– Nem tanto, nem tanto!

E perdi lá meus dois pontos. Foi o que me fez lutar um pouco contra essa tendência.

Também quem fala menos, menos estropia a língua. Menos tem oportunidade para errar.

Uma colega de trabalho, há algum tempo, me perguntou por que as pessoas no Rio de Janeiro dizem “soltar do ônibus”. Respondi que é porque falam errado. Deve ser “saltar do ônibus”. “Ah!”, disse ela, compreendendo a expressão.

Semelhantemente ocorreu comigo, logo que cheguei a Niterói. Havia um camelô na esquina da Avenida Amaral Peixoto com Visconde Uruguai, que vendia uma traquitana para picar temperos. Aos gritos e fazendo funcionar o aparelho, anunciava:

– Não resta prática, nem tampouco habilidade!

Comentei com meu amigo Walter Bretas, manifestando meu estranhamento no uso do verbo restar. Ele, que também é de Niterói, e conhecia o camelô, deslindou o mistério:

– Ele quer dizer: não requer prática.

– Ah! – fiz eu, entendendo a linguagem estropiada do camelô.

Coitada da língua!

Imagem em seriesfreaks.blogspot.com.

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