HOJE EU VOU DORMIR COM UM HOMEM DE OBRA!

Quando cheguei a Niterói, em março de 1967, fui morar na pensão de Dona Dinorah, no 29 da Rua Pereira da Silva, primeira quadra da praia. Hoje, no local, há um edifício.

O endereço era de uma casa geminada de dois andares. A pensão, assim, estava colada à casa de funcionário de um banco que hoje não mais existe e do qual contarei, em breve, fato verídico, para vocês verem até onde chega a maluquice do ser humano. Na parte de cima, ficavam os rapazes. Na de baixo, as moças e a dona da pensão, mais alguns membros de sua família. Atrás havia um puxadinho, onde moravam dois paraguaios que faziam faculdade na UFF e algumas empregadas.

Embora fosse um casarão antigo, estava sempre varrido, pano molhado passado nas tábuas do assoalho da parte de cima, onde também era o quarto do filho de Dona Dinorah.

Mas nada disso importa para o que quero lhes contar. Isso foi só para fazer a introdução.

Pois bem. Por um tempo, havia duas copeiras-arrumadeiras, para dar conta do serviço. Uma delas era minha conterrânea, moça negra de seus vinte e tantos anos, tímida, a que vou chamar de Isabel, pois não já me lembra o nome. A outra, também negra, porém bem mais escura, viera de outro lugar, que não sei qual. Vou chamá-la de Antônia, só para organizar a narrativa. Não estarei inventado tudo, só os nomes delas, para facilitar.

Antônia era um pouco mais nova que Isabel. Talvez não tivesse chegado ainda aos vinte anos. Mas era uma negra bonita, esperta, e regulava altura com a colega. Muito sestrosa, muito saída, certo sábado chamou Isabel para darem umas voltas após o trabalho, que, nesse dia, se resumia apenas a servirem o almoço.

À tardinha de um sábado morno, saem as duas para o passeio combinado: Isabel, em suas roupas simples de moça do interior, e Antônia, com sua indumentária a indicar “hoje vou pegar alguém”: saia curta, blusa decotada, batom saliente nos lábios. Saíram da pensão para o Campo de São Bento, deixando um rastro de perfume simples, como eram suas vidas.

Na época, em torno do Campo de São Bento, construíam-se vários prédios, que lá estão até hoje, em substituição a belas casas baixas do princípio do século vinte. O local, para os que não o conhecem, é uma grande praça, muito bem arborizada, com caminhos, espaços, parque, fonte luminosa, coreto, a que os niteroienses vão a lazer, sobretudo nos fins de semana.

Por volta das nove horas da noite, chega Isabel desesperada à pensão, com um olho roxo e um corte no lábio, onde secava amiúde um filetezinho de sangue. Chorava como criança.

Foi um alvoroço total! Os que estavam na pensão no momento corremos para saber o que tinha havido. Dona Dinorah ficou apavorada com a cena.

Isabel, tentando controlar o choro, contou que tinha levado uma surra de Antônia, porque se recusara a ir para a cama com um dos peões de obra que trabalhava nos canteiros ao redor da praça. Disse que não sabia que a intenção de Antônia era essa. E, chorando, confessou ser ainda virgem.

Foi um desacerto! Todos quiseram socorrer Isabel, dar-lhe água com açúcar, colocar compressas no olho e no lábio. Consolá-la, enfim! Um jovem morador mais gaiato até falou que talvez ela sofresse menos se fosse transar com o peão, afirmando que doía, mas era bom. Dona Dinorah acabou dando um pito no engraçadinho.

Seguíamos na atenção a Isabel, quando aparece no portão da casa a dita Antônia, já mais para lá do que para cá, movida a aguardente de cana de marca incerta e não sabida, gritando por Isabel, “sua isso, sua aquilo, sua frouxa, sua santinha do pau oco”. E chamava Isabel, aos gritos, para ir com ela, de par, porque a transa já estava acertada com dois peões: ela com um e Isabel com outro. Ia ser uma festa!

Dona Dinorah, viúva de respeito e de rígidos princípios, disse poucas e boas à empregada pinguça e despediu Antônia ali mesmo da varanda da pensão, mandando que ela voltasse só na segunda-feira, já recuperada da trabuzana, para acertar as contas.

A copeira-arrumadeira desatinada, já bem torta pelo efeito da calibrina, saiu gritando pela Rua Pereira da Silva, que foi um general de muito respeito e muita prosopopeia:

– Hoje eu vou dormir com um homem de obra! Hoje eu vou dormir com um homem de obra!

E lá se foi ela, sacudindo a saia curta e dobrando a esquina da Rua Moreira César (coronel que enfrentou Antônio Conselheiro e deixou seu couro em Canudos, depois de aprontar muito em sua vida militar), em direção ao Campo de São Bento, onde deve ter-se refestelado entre os tapumes e os sacos de cimento do edifício em construção.

 

Imagem em tiud.org.ua.

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