BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA DE MIM MESMO

Vou lançar uma autobiografia, mas, de antemão, já aviso que não a autorizarei.

Não sou desses desfrutáveis que gosta de se ver na mídia, tendo casos com moças bonitas, esbanjando dinheiro em festas orgíacas, fazendo viagens a paraísos fiscais, publicados em papel de imprensa. Se eu mesmo falar de mim nesse tom, me desautorizo. Não estou aqui para dar milho a bode ou botar empada na azeitona de mim mesmo.

E meto-me um processo em cima! Vou tentar arrancar uma grana de mim mesmo e não permitir que essas inverdades e esses papéis miseráveis todos venham a público.

Se possível, mato no nascedouro essa minha ideia estapafúrdia de me biografar, sem que para isso eu mesmo me autorize. E não estou disposto a tanto!

Por isso é que estou com Caetano, Chico e Roberto: se quiserem falar de mim, ganhar dinheiro às minhas custas, ficar famosos na minha aba, terão de vir beijar a minha mão. Eu mesmo tentei fazer isso, beijando a mão esquerda, mas a direita não concordou. E, se a direita não concorda, a esquerda não tem nada que se meter a besta.

Onde é que já se viu escrever sobre os outros, sem o devido nihil obstat? Já se esqueceram da Dona Censura? Da Santa Madre?

Eu também posso exercer este poder sobre mim mesmo, desde o órgão mais interno do meu corpo até as bobagens que saem da minha boca ou as besteiras que faço no dia a dia. Sou dono de tudo e sou uma ilha cercada de mim mesmo, aonde ninguém pode chegar sem que eu autorize.

E nem quero lembrar aqui o que Caetano disse em forma de canção lá pelos idos dos sessenta em é É proibido proibir. Naquele momento, ele falava a seu favor, como agora também fala. Não me venham dizer que pimenta no fiofó alheio é refresco, porque não é não. E Caetano sabe muito bem.

Toda a briga que Chico teve contra a censura da Ditadura Militar foi a seu favor, como agora parece ser sua postura diante desta nova pedra de toque da mídia.

É mais ou menos assim: deixem que eu mesmo falo de mim. Eu me conheço melhor do que qualquer outro. Até porque já fiz anos e anos de análise freudiana, junguiana e pé de cana.

Estou com Caetano e não abro: só não é proibido proibir, quando quem proíbe sou eu mesmo.

E essa conversa de fazer História é bobagem. Não temos memória mesmo. Então, para que fazer História? Vão escrever sobre mitocôndrias e amebas, monocotiledôneas e angiospermas. Ou alofones e alomorfes, pô!

Sai pra lá, Valdemar!

(Atenção: Leia o PS logo abaixo da ilustração.)

Imagem em produto.mercadolivre.com.br.

—–

PS: Caetano e Chico são meus ídolos desde a década de 60 até os dias de hoje, por tudo que fizeram pela MPB e pelas liberdades democráticas no Brasil. O que não me impede de, vez ou outra, também ser do contra.

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2 comentários em “BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA DE MIM MESMO

  1. Assino embaixo. Sou contra qualquer censura. Mas se alguém quiser escrever a minha, vou ter d dar uma olhada primeiro..

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