NO TÁXI, EM BUENOS AIRES – II

Taxistas são profissionais especiais. Além de nos quebrarem um galho imenso, levando-nos por aí afora, deixando-nos em frente a nosso destino, sem que precisemos procurar estacionar o carro; salvando-nos da famigerada Lei Seca; ainda nos brindam com papos saborosos, alguns cheios de opinião sobre todo e qualquer assunto, sobretudo o mais recente e de maior repercussão. Eles têm, normalmente, solução para todos os problemas de trânsito que enfrentamos e xingam as autoridades da área que nunca os consultam para saber como fazer a horda de automóveis e ônibus fluir livremente por nossas acanhadas ruas. Houve um, inclusive, na época da inflação descabelada em que vivíamos, que me deu, durante uma corrida de cerca de quinze minutos, a solução ideal para nossa então enlouquecida política econômica.

Já lhes contei aqui sobre o motorista argentino que fez uma blague sobre meu desejo de ir até a Casa Rosada. Pois este mesmo, quando passamos diante de uma casa de tangos e respondendo à minha indagação de se aquele apresentava um bom espetáculo, respondeu:

– Argentino não liga para tango. Isto é para turista.

E fiquei pensando: Ó, diabos! Se não gosta, por que inventou o tango? Para aporrinhar a gente? Para faturar com o gênero tipo exportação, como fazemos com a soja?

E me ocorreu a velha piada que põe um norte-americano, nos anos cinquenta, em Buenos Aires a perguntar a um transeunte portenho:

– Usted hace tangos?

O argentino olha para o gringo e, do alto de sua soberba antológica, no portunhol da piada, lhe responde:

– No soy tísico, tengo la plata, no soy cornudo! Por que hacer tango?

Eu, então, que já estava um tanto reticente, mesmo na qualidade de turista, em ir ver um show de tango, recolhi minha tíbia pretensão e não fui ver. Se eles não gostam, por que eu haveria de gostar? Economizei 900 pesos argentinos.

Mas certamente que há argentinos que gostem de tangos. Até já ouvi dizer que esses, os amantes do gênero, têm verdadeira ojeriza à obra de Piazzola. É que Piazzola se meteu a inovar um gênero que já nasceu tradicional e não tinha pretensão nenhuma de remoçar. Sei, contudo, que há tangos e tangos, embora não seja este um gênero musical da minha predileção. Tenho até, numa das bolachas de vinil do final do século passado, um tango composto e executado por um grupo de rock progressivo alemão, lá chamado de krautrock – o Amon Düül II -, intitulado Dreams (álbum Made in Germany, 1975)*. Até achei legal! Mas, de resto, o original é um choro só, um desespero sem fim, em suas letra, a não ser as velhas exceções de praxe.

Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé!**

Imagem em fotosearch.com.br.

* Se quiserem ouvir o tango alemão é só clicar no link http://youtu.be/ikfffK54tf0

PS: Ouvindo lá do fundo do quarto a reprodução que fiz de várias versões de Cambalache**, no computador, minha mulher me diz: “Que bonito! Quando voltarmos a Buenos Aires, iremos ver um show de tangos.”

Então está combinado, leitor amigo: ao tango!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s