MEU DIA TEM ATÉ NOITE

Não há um dia, em sessenta e sete anos e alguns dias, que eu não passe vivo. É impressionante. Vou dormir vivo e acordo vivo.

Lembro-me do meu tio Aurélio fazendo chiste com a morte de um conhecido que teve um fulminante ataque cardíaco enquanto dormia:

– Fulano foi dormir e, quando acordou, viu que estava morto.

Meu dia passa, assim, com vinte e quatro horas. Em algumas, estou acordado; em outras, dormindo. Em qualquer delas, felizmente, vivinho da silva. Ou de Machado de Mello, como é mais próprio da minha pessoa. Procuro até respirar um pouco mais devagar para não gastar o aparelho respiratório e não consumir muito oxigênio. Só não economizo na comida: ponho bastante pimenta, que é o jeito que encontrei de viver perigosamente. Porque, se me chamarem para fazer rafting, canyoning ou lifting, tou fora! Já é um pouco demais pra mim! Ou, como dizíamos lá em nossa vilazinha de Carabuçu: É meio muito!

E olho bastante, de preferência quando estou acordado. Para aproveitar o resto de visão que ainda me sobra! Procuro ver tudo, sobretudo o que apetece aos olhos e confortam o coração. Desde uma mimosa flor, até a mimosura de uma bela mulher.

Mas também costumo ver umas porcarias, de vez em quando: um jogo do Botafogo, em seus piores momentos que nem convém lembrar. Nesses instantes, se não estou no estádio, tenho o privilégio de trocar de canal e ver outras coisas mais interessantes.

Desde que me aposentei, meu dia ficou muito mais curto. Quase não tenho tempo de não fazer nada, já que aposentado tem a vida muito tumultuada. Houve uma época, lá pela década de oitenta do século passado, em que me desdobrava em três empregos: desde as oito horas da manhã, até lá por volta das dez e quarenta da noite. E ainda dava tempo de fazer outras coisas. Hoje, isto é mais complicado. É que, à época, tinha muita disposição. Hoje ando meio derrubado, como se diz.

Meu dia é tão engraçado, que tem até noite. Volta e meia escurece nele. Mas eu, às vezes, finjo que não estou notando e toco o barco como se dia claro fosse. Ao dar por mim, já estou preste a dormir, para acordar no outro dia vivo. Não tão glorioso como merece a criatura (Caê já disse isso: devíamos brilhar, na qualidade de gente!). Contudo, vivo! E é o que me basta.

Vejo, por exemplo, que muita gente se digladia por questões ideológicas. Já até fiz isso. Mas como já troquei de ideologia umas três ou quatro vezes, percebi que esse troço é passageiro e não me convinha fazer proselitismo de nenhuma espécie. Cada um que fique com a sua convicção, com a sua certeza passageira. Nenhuma delas, realmente, é a correta. Nenhuma detém a verdade. Por isso é que optei por ir tocando o barco. Tipo Zeca Pagodinho: Deixe a vida me levar.

Um dia, porém, pode ser que seja só noite. Enquanto isso não se dá, vou alternando luz e escuridão. Mas sempre vivo. Ou o que quer que isso signifique.

A noite descendo sobre a Baía de Guanabara (foto do autor).

A noite descendo sobre a Baía de Guanabara (foto do autor).

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