VERDADE, TERTA?

Cada vez mais, me convenço de que não existe verdade, ou, antes, A VERDADE, assim com letras maiúsculas, que seria uma só e excluiria todas as demais convicções e ideologias. Tudo aquilo em que cremos pode não coincidir com aquilo em que o outro acredita. Basta ver, no caso das religiões, que, a partir de um dogma inicial, sobre o qual não se poderia opor nenhuma contestação, o que mais ocorre são as chamadas heresias. Melhor dizendo, verdades derivadas, que tentam corrigir a verdade errada inicial, arvorando-se estas mesmas em novas verdades.

No caso das ideologias políticas, se dá o mesmo. Só pelo fato de serem plural, já se elimina o caráter de verdadeiro de qualquer uma delas. Desde que o mundo é mundo, as ideologias políticas se substituem ao sabor dos ventos. Algumas duram décadas, séculos, talvez. Mas acabam sucumbindo a novos ventos contestatórios e inovadores, que trazem novas luzes ou novas confusões sobre aquilo em que se acreditava piamente há pouco. O poder quiçá será a única encarnação de ideologia que não seja transitória, mas permanente, metendo ferros em quem a ele se submete ou a ele se opõe. Foi só o ser humano se organizar em grupo, que logo apareceu um abestado se dizendo o rei da cocada preta. Quando a coisa não se dá por meio de persuasão ideológica, vai na base do cacete mesmo. Metem-se as armas a funcionar e vence o mais poderoso, aquele que consegue mais aliados.

Até mesmo nas artes, as verdades pululam como pererecas no brejo, ao longo dos séculos. Pode ser na música, na literatura, na arquitetura, nas artes plásticas. Cada época, cada sociedade têm a sua expressão verdadeira, têm o seu modo particular de recriar e reproduzir a realidade. Especificamente no caso das artes, temos a vantagem de nenhuma querer destruir a outra, senão a inovar a partir dali, até mesmo se repetindo séculos depois, só para contrariar (sem trocadilho infame com aquele grupo de pagode brega). Cada escola de arte começa por contestar a anterior, até que se institui, se consolida e tem seus preceitos destronados por outra que lhe segue.

Por isso é que é difícil pensar que o ser humano seja capaz de produzir verdade. Os ocidentais somos os melhores, temos a melhor ideologia, a melhor condição de vida? Discutível! Temos a nossa visão de mundo. Outros povos terão a deles. Há coisas, no entanto, em que não se pode tergiversar: o respeito ao ser humano, à sua liberdade e à sua vida. Por via de consequência, o respeito àquilo que faz o ser humano melhor: a natureza e o ambiente social.

Melhor, então, do que sair por aí pregando verdades aos quatro cantos, como se martelasse prego em tábua de porteira, é tentar entender o outro, aceitar o outro, ainda que ele seja uma besta quadrada. Porém desde, é claro, que não seja um bandido, um criminoso, um pilantra. Nesse caso, para ele – o outro – só haverá uma verdade: ferro na boneca.

Meu guru Millôr Fernandes, numa autocaricatura.

Meu guru Millôr Fernandes, numa autocaricatura.

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