GERAÇÃO ESPONTÂNEA

Sou do tempo em que a Ciência acreditava em geração espontânea, ainda que com certas reservas, tipo desconfiômetro ativado. Ou, pelo menos, meu professor de Ciências do curso ginasial, lá nas salas do glorioso Colégio Coronel Antônio Honório, acreditava. Para ele, aquela equação científica medieval “trapo velho + umidade = rato” era absurda, coisa ultrapassada. Mas nos dava exemplo da laranja-bahia, como um caso comprovado de geração espontânea. Como modernamente é o caso da axé-music, do acarajé e do caldinho de sururu, em terras de ACM Neto, que anda extrapolando sua competência para os estressados soteropolitanos.

Eu ainda menino, que sempre tinha tal laranja como a minha preferida, agradecia à natureza por essa espontaneidade toda.

Segundo meu professor, a laranja-bahia foi encontrada casualmente no interior da Boa Terra, sem que ninguém a tivesse desenvolvido e cultivado. Na minha então cabeça de menino, ocorria certo prazer em imaginar que a natureza se preocupara em criar aquela laranja especialmente para mim. E assistia à aula com orgulho.

Décadas depois, para meu horror – ainda resta em mim alguma implicância universitária com o Tio Sam –, encontro no mercado laranja-bahia importada dos Estados Unidos. De cor mais alaranjada, com menos polpa, paladar menos ácido e mais cara.

Tenho comprado dela, quando não encontro o produto nacional (Minha implicância está abrandada.). E lhes garanto que é também uma boa versão da nossa fruta original, embora sem a leve acidez que tanto me agrada no gosto da nossa.

Por outro lado, tenho de admitir que, às vezes, os ianques são competentes ao fazer releitura de clássicos (Não propriamente do cinema, em que, invariavelmente, abastardam um argumento original estrangeiro, para satisfazer seu ego cinematográfico.). No caso específico dessa laranja, eles desenvolveram, além da polpa um pouco mais fina, aquilo que, na nossa, é o umbigo, nem sempre comestível, uma minilaranja, com seus gominhos suculentos e aptos a serem devorados com o mesmo prazer utilizado para a fruta-mãe.

É por isso que perdi um pouco de fé no marxismo, como ideologia agrícola. Ele não foi capaz de produzir uma boa versão socialista da nossa laranja-bahia, como o fizeram, relativamente ao capitalismo, os Estados Unidos.

Mas de espontânea a laranja-bahia ianque não tem nada. É uma cópia aperfeiçoada da nossa, sem o nosso jeitinho brasileiro: a leve acidez que faz a diferença.

Também aposto que eles não nos pagam royalties. E periga que, daqui a pouco, a registrem como produto originário da Baía de São Francisco, onde já se flagrou uma afrodescendente americana, de turbante na cabeça, oferecendo aos passantes “hot acarajay”, sob os acordes de “eu vou pra Maracangalha, eu vou” do seu aparelhinho mp3.

O produto nacional (em pradegustar.com.br).

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