O NOVO DISCO DO CAT STEVENS

Yusuf há de me perdoar por ainda chamá-lo de Cat Stevens. Sou seu fã antigo, da época em que ele vendia milhões de discos, fazia um sucesso atrás do outro, levava a vida com certo desregramento, mas fazia canções sensacionais. E tocava um violão bem característico, com o barulho da paleta sobre as cordas de aço.

Depois de um perrengue no mar da Costa Oeste dos Estados Unidos, em que quase morreu afogado, clamou aos céus por socorro e jurou, caso fosse salvo, viver a vida para o seu Deus salvador. E não é que uma onda mais forte o lançou na areia da praia! Estava salvo, mas o músico morreu. É que, ao chegar de volta à Inglaterra, um irmão o presenteou com um exemplar do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Cat viu aí o sinal que faltava. E se embrenhou de cabeça na religião. Deu azar, pois foi ser orientado por um religioso conservador, que exigiu dele o abandono total de todas as suas atividades, inclusive a de tocar o violão, que ele, o religioso, considerava instrumento do mal. Trocou seu nome, sumiu do mapa, até aparecer como apadrinhando a grotesca condenação à morte de Salman Rushdie pelo Aiatolá Khomeini. Alguns anos depois, disse que fora mal interpretado pelos jornalistas.

Pois muito bem. Durante todo esse tempo em que ele se afundou no fundamentalismo religioso, parei de ouvir seus discos. Tenho vários deles. Mas me incomodava o fato de ele ter dado uma guinada tão grande e de modo tão drástico, que não me sentia à vontade em ouvir sua voz, mesmo a antiga, na minha casa.

Até que há poucos anos ocorreu outra guinada. Menor, é verdade, mas com o abrandamento de sua ideologia fundamentalista. Certo dia, ele conta isso, chega em casa e vê sobre o sofá da sala um violão. Seu filho o deixara lá. Ele olhou e pensou que aquele instrumento talvez não fosse do demônio, do mal. Sentou-se, pegou-o e começou a dedilhar. Não havia esquecido absolutamente nada do que tocara, embora não tivesse mais a mesma agilidade. Orientado por outro religioso, de outra mesquita, que lhe disse que os instrumentos musicais não são do mal, mas o que o homem canta é que pode ser do mal, Yusuf se permitiu voltar a tocar, a cantar e a fazer shows.

O disco que saiu agora, Tell ‘em I’m gone, traz um Yusuf mais Cat Stevens, até mesmo nas roupas, pois, em seu período mais fervoroso, vestia-se com a túnica islamita. Há fotografias do álbum em que aparece em roupas ocidentais modernas.

Mas o que importa mesmo é que o disco também está muito bom de se ouvir. Há uma forte presença de blues e R&B, com algumas regravações de clássicos do gênero e composições próprias. E a velha pegada do violão começa a voltar à forma.

Na entrevista que está no DVD de An other cup, perguntado sobre o futuro, ele deixa uma abertura, como que a dizer que as mudanças não estariam descartadas, ele que tanto mudara. Parece que ele abriu mão do fundamentalismo, como se pode notar. Mas a coisa anda a passos medidos, e nunca de uma guinada brusca como ocorreu em sua “conversão”. Talvez em Doors, a última faixa do CD, de sua autoria, isto esteja subentendido:

When a door is closed
Somewhere, there’s a door that’s opening
When a light goes out
Somewhere, there’s a light that’s shining

God made everything
Just right

If you never risk to lose
You may never get to win
If you never venture out
You will see nothing

God made everything
Just right

When a flower dies
Somewhere, there’s flower blooming
When a Sun goes down
There’s a Moon rising

When a door is closed
Somewhere, there’s a door that’s opening

 

Também uma foto, que ocupa duas páginas do encarte, mostra o músico, de roupas ocidentais, chapéu ocidental, violão à mão, de costas para a objetiva, caminhando por uma trilha entre o capim. Lá na frente, um bosque e o céu aberto. Esta foto permite muito mais viagens sobre seus sentidos escondidos.

Fico torcendo, porque quem quer que seja – Ysuf Islam, Yusuf ou Cat Stevens – o britânico descendente de gregos, Steven Demetre Georgiou, é um grande artista.

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Tell ‘Em I’m Gone, 2014, Sony Music

Faixas:

  1. I was raised in Babylon/Ysuf Islam
  2. Big boss man/Luther Dixon e Al Smith
  3. Dying to live/Edgar Winter
  4. You are my Sunshine/James Davis e Charles Mitchell
  5. Editing floor blues/Yusuf Islam
  6. Cat & the dog trap/Yusuf Islam
  7. Cold digger/Yusuf Islam
  8. The devil came from Kansas/Gary Brooker e Keith Reid
  9. Tell ‘em I’m gone/Yusuf Islam
  10. Doors/Yusuf Islam

 

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