JOE COCKER

Conheci Joe Cocker nos idos dos 70, no Cine São Bento, em Niterói, numa sessão de meia-noite. Era Woodstock, o filme de 1970, dirigido por Michael Wadleigh, em que ele aparecia, como um possesso, cabelos molhados em desalinho, gestual de briguelo, incendiando a plateia do festival e os espectadores da sala escura com uma interpretação acachapante do clássico dos Beatles, With a little help from my friends. Se os Fab Four tinham registrado a música numa espécia de balada saltitante, com o ritmo bem marcado, Cocker nos trazia a mesma melodia agora numa levada soul, de tom grave, a acentuar a necessidade desesperada da ajuda dos amigos. O saltitar da gravação original foi substituído pelo alongamento da frase melódica, que passou a ser insinuante, cheia de curvas, pelos trejeitos vocais do cantor e o típico vocal de apoio de música gospel. Isto aumentou em muito a dramaticidade da canção, também acentuada pelas expressões corporal e facial e os movimentos imprevisíveis dos braços e dedos de Joe, que pareciam tocar uma guitarra imaginária. Até então jamais tinha visto interpretação tão carregada de emoção. E isto bastou para que eu o escolhesse como um dos grandes do cenário da música. Daí em diante, não mais parei de comprar seus discos.

Se, por um certo período, ele esteve sumido do cenário – envolvimento com drogas e álcool -, mesmo lamentado sua ausência, seus discos jamais deixaram de rodas em meus aparelhos. E, assim que retomou sua carreira, agora mais comportado nas apresentações, portanto menos incendiário, mais maduro, a marca da competência e o bom gosto do repertório foram mantidos. Estão nessa outra fase o velho blues, o soul, o r&b, alguma coisa jazz, enfim canções sempre com o jeito Joe Cocker de dizer a palavra cantada.

Ontem ele faleceu, e a música ficou um pouco mais triste com sua perda. Dificilmente haverá outro semelhante. Porque Joe Cocker foi o primeiro e o único de uma geração em que o talento estava em todos os músculos do corpo, e sobretudo na voz.

Descanse em paz, Joe Cocker!

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Clique para ouvir o balanço de Woman to woman.

 

Imagem em images.wolfgangsvault.com.

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