O PACIONAL

No velório da mãe, chega um antigo conhecido da família para cumprimentar a filha chorosa. Aperta-lhe a mão, abraça-a e dá um beijo respeitoso de velho amigo em sua face. O marido, ao lado, se levanta e dá um murro violento no nariz do cavalheiro, que cai por entre as coroas em homenagem à pranteada defunta.

Foi um constrangimento geral! O homem levanta-se atordoado, nariz quebrado sangrando, e sai da capela mortuária sem entender o que havia acontecido. Lelena, a mulher, como diria o compositor de boleros, prorrompe em choro convulso, agravado pela perda da mãe, chama o marido de grosso, ignorante, besta quadrada, dentre outros adjetivos e expressões publicáveis em coluna familiar, e o manda embora do recinto. A família ficou catatônica com a cena. Os amigos comentavam baixinho, para não incomodar o de cujus, o comportamento do marido de Lelena.

Foi a gota d’água para que pedisse o divórcio daquela cavalgadura que tolerara por dez anos.

No dia da audiência de conciliação, Sua Excelência pergunta à mulher o que a levou a entrar com o processo de divórcio litigioso. Ela, então, depois de lhe contar alguns fatos em que, segundo lhe parecia, o ciúme do marido não permitia que a relação fosse uma coisa saudável, culminou com a história do velório da pobre mãe, que nem na hora extrema pôde ser velada em paz. O juiz, do alto de sua sapiência jurídica, após ouvir atentamente a fala de Lelena, conclui solene:

– É um passional!

Lelena e as irmãs presentes à audiência se chocaram com a revelação. Ela mesma expressou isto:

– Está vendo como ele é, Meritíssimo! Ele nunca me disse isso. Se não é o senhor, eu não ficaria sabendo de mais esse defeito dele. Além de grosso, ciumento e ignorante, é isso também.

Terminada a audiência, com a homologação do divórcio, em que o réu levou na cacunda as penas da lei, com cominações legais, morais e financeiras, Lelena foi com as irmãs e uma amiga para casa. Em lá chegando, correram ao dicionário, para avaliar o peso da acusação do juiz em cima do ex-marido. Reviram as páginas de um lado para o outro, sem conseguir encontrar o diabo da palavra, para que elas ficassem sabendo ainda mais do caráter do homem. A amiga, vendo que procuravam a palavra “pacional”, resolveu ajudar e disse para que a pesquisassem com dois esses: passional.

Imagem em diariodeceilandia.com.br.

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