TRABALHISMO X TRABALHISMO

Minha sábia mãe, hoje com seus oitenta e nove anos, dizia, lá pela década de 60, quando os debates políticos estavam acirrados tanto ou mais do que hoje, que não tinha o menor medo de o Comunismo se estabelecer no Brasil, católica que era, porque tinha a certeza de que os próprios comunistas brasileiros se incumbiriam de esculhambar o Comunismo.

Nós, brasileiros, temos esse atavismo de esculhambar tudo. Pior mesmo que carnavalizar. É tornar tudo uma esculhambação só.

Esculhamba-se tudo, de alto a baixo, de federal a distrital, do lá de cima ao lá de baixo, não importam quais sejam as razões.

Começamos por esculhambar a lógica política: se sou oposição, sou contrário a tudo do governo; se sou situação, voto até contra os princípios programáticos do meu partido. Como tem ocorrido agora, com o tal ajuste fiscal – espécie de prancha de salvação em mar tempestuoso –, sem o qual o país mergulhará na mais profunda recessão. E logo nós, que estávamos a salvo de todas as turbulências do mercado internacional, a se acreditar no que diziam os dirigentes nacionais.

Pois o Partido dos Trabalhadores votou pela “flexibilização” nas regras para alguns direitos trabalhistas. Impensável isto, se fôssemos um país minimamente sério.

O que ocorre, na verdade, é que não temos ideologia. Ideologia para nós é apenas um verniz que encobre um miolo indistinto. Somos socialistas no varejo, não no atacado. Somos comunistas no detalhe, não na essência. Acho que apenas a Direita é coerente. Vem assim deste antanho e continua a mesma. Não que ela seja indispensável. Há que se ter, no conjunto democrático, todos os matizes, a fim de que nenhuma corrente possa ser hegemônica. Guardadas as devidas proporções, fico com a assertiva de Nelson Rodrigues, um direitista assumido, de que toda unanimidade é burra. Assim, justifica-se a existência do oposto, do contraditório, do ex-adverso, como se diz em linguagem jurídica.

Contudo trabalhistas votarem contra conquistas sociais dos trabalhadores é, como dizíamos na minha vilazinha de Carabuçu, meio muito. Coisa assim de não se entender, nem se explicar. A não se que se diga: Ah, mas agora o PT é situação! E a situação do país está periclitante.

Isto, na verdade, me leva a crer que, quando o pau quebra, só há o remédio monetarista, de direita, conservador, para consertar as merdas que se fazem em nome de não sei que princípios. Na Grécia, por exemplo, foi eleito um esquerdista radical, que teve de tomar o remédio amargo da economia global. Não se vive ilhado atualmente.

Como sou brasileiro e não sueco, entendo tudo isso. Estou no mesmo barco. Mas ainda me resta o último suspiro de indignação: Eh, Brasilzão lascado, sô!

 

Imagem em pt.slideshare.net.

 

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PS: Sou pedetista envergonhado.

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