VIZINHOS II

Imagem em twitter.com.

Hoje pela madrugada, fui acordado com sopapos violentos na porta de algum apartamento ou do meu prédio, ou do prédio vizinho. Meu quarto dá para a área interna que é comum aos dois edifícios, e fica complicado saber de onde vinha o furdunço.

Naturalmente que as pancadas já deveriam vir ocorrendo num crescendo, até que fui acordado. E mais a pessoa batia, e nada de ser atendida em suas pancadas. Imaginei até que a porta acabasse por sucumbir à agressão. Então surgiu aquela voz de homem, um tanto grave, dada inclusive a gravidade do momento:

– Abre a porra da porta!

Fiquei chateado. Sou uma pessoa boa de cama. Quando pego no sono, só acordo na manhã seguinte, depois de o sol já estar com o horário de trabalho adiantado. E pensei lá, com meus carneirinhos despertados, que não voltaria a pegar no sono facilmente, já que o homem ainda deu mais uns três safanões na pobre porta. Depois se fez silêncio. Sobressaltou-me, então, a expectativa de que ou o homem esganasse a pessoa que lhe abriria a porta, ou, ao contrário, levasse uma traulitada no meio da cara, seguida de um esporro monumental. Tudo é possível, quando a situação chega a tal ponto. 

Não é comum, mas já ocorreu, ouvir marido e mulher discutirem a relação às tantas da madrugada. O marido, obviamente, chegando com bafo de conhaque de gengibre, gola suja de batom, e a mulher dizendo poucas e boas para ele. Até já contei sobre isto aqui mesmo no blog em Vizinhos. Nessas oportunidades, sempre fico com receio de que alguém dê um tiro no outro. Está muito comum no país dar um tiro no outro a troco de nada, ou de uma traição, quem sabe. Assim, tendo já esse precedente, fiquei aguardando que o pau cantasse, assim que a porta fosse aberta. Até mesmo um pai que recebesse aquele filho tresnoitado – e, quem sabe, de cuca cheia de bagulho -, a ovelha negra da família, e aproveitasse para mandá-lo embora, como na canção da Rita Lee.

Mas se fez um silêncio quase sepulcral. A madrugada voltou ao seu normal citadino e tornei a pegar no sono. Entre pancadas na porta e expectativas de desentendimentos familiares, Morfeu se apoderou de minha pessoa, e só acordei com o sol, de marmita embaixo do braço, indo para o trabalho.

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