EM LOUVOR DA MANDIOCA

A mandioca é plantada na terra em pequenos toletes fálicos. Passa boa parte de sua vida no lugar para onde vamos ao morrer. Então nasce debaixo da terra, donde é extraída a poder de enxadadas ou a puxões vigorosos em seu cordão umbilical. Sai com a pele enrugada, como qualquer recém-nascido, e toda coberta por terra e marcas de enxada, coitada.

Assim que é transportada até o berçário, ou melhor, até a casa de farinha, toma um banho de água fria e é esfolada ainda em vida, com um áspero raspador de folha de flandres, até que tenha removida toda sua frágil pele. Fica exposta em sua nudez branca ou amarela, conforme seja sua etnia, sem o mínimo respeito. Sua espinha dorsal, então, é arrancada com facas, após ser esquartejada em pequenos pedaços. (Eu mesmo, em casa, pratico essa atrocidade com a pobre da mandioca.)

Caso seja da espécie brava, sofrerá logo de saída a moagem de suas carnes e a consequente cremação de seus restos mortais, esmigalhados, esfarinhados, num grande tacho com uma fogueira embaixo, um homem – ou mulher – a espalhar constantemente o que dela sobra com um instrumento de tortura chamado rodo, até que, soltando o restinho de lágrimas que lhe sobrem capazes de se transformar em tucupi, vire farinha seca, farinha d’água, polvilho doce e polvilho azedo.

Se da espécie mansa, ainda terá o fugaz prazer de viajar em caminhões sem nenhuma segurança e chegar para ser exposta à cobiça pública em bancas de quitandas, mercados e hortifrútis metidos a besta.

Levada então para o recesso do lar do predador maior – o sero mano (em grafia de candidato ao vestibular) –, ainda é submetida à prática medieval da fervura, em água misturada a sal, para lhe doer ainda mais a carne. O insensível frita-a posteriormente, em óleo fervente, e a devora, com prazer, acompanhada de uma cerveja gelada ou de uma pinga de alambique. Pode ainda coroar seu epitáfio gastronômico com rodelas de cebola refogada com pimenta malagueta amassada.

Quando muito condoído com a sorte da pobre coitada mandioca, o sero mano a mistura a uma galinha caipira, a uma costela de boi, a uma costelinha de porco, o que, pelo menos, lhe dá uma companhia na reta final de uma existência curta e inglória. Nesses momentos, quase sempre tem a acolitá-la no velório e sepultamento estomacal o angu molinho, o feijão grosso trabalhado no alho, na cebola, na folha de louro e no toucinho de fumeiro, e no arroz molhadinho no azeite extravirgem.

Por tudo isso é que nossa presidente resolveu louvar a mandioca nacional, uma grande conquista do povo brasileiro no campo da subsistência das classes mais desvalidas do agricultura humana.

Salve a mandioca! Salve o aipim! Salve a macaxeira! Salve o aipi! Salve a castelinha! Salve o uaipi! Salve a mandioca-doce! Salve a mandioca-mansa! Salve a maniva! Salve a maniveira! Salve o pão-de-pobre! Salve a mandioca-brava! Salve a mandioca-amarga!

 

Imagem em imagens.usp.br.

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