ESPECIALISTAS

Gosto muito de ser atendido, em minhas necessidades de consumidor/cliente/paciente, por especialistas. Aliás acho que isto é um desejo quase que unânime das pessoas. Quando você encontra um especialista, a sensação que lhe ocorre é a de que está em boas mãos. E, ainda que no fim tudo dê errado, você certamente tem o consolo de pensar: É, estava com um especialista. Imagine se estivesse entregue a um curioso?

Por isso é que sempre faço questão de procurar um especialista até para as mínimas coisas da vida, e, se não o encontro, prefiro abrir mão de comprar algo ou de ser atendido por qualquer um que se meta a tal.

Estou dizendo isto porque ontem, ao voltar de uma viagem bate-volta a Bom Jardim, já na boca da noite, fui com Jane tomar um caldo num restaurante do início da Moreira César. O restaurante é agradável, está estabelecido em uma das últimas casas da rua e fica pertinho de onde moro.

Jane escolheu canja de galinha (Com prudência, não faz mal a ninguém.); eu fui de caldo de mandioca (Está na ordem do dia a mandioca!) com carne-seca. Assim que a jovem garçonete graciosa nos trouxe os pedidos, perguntou-me se eu queria pimenta. Claro que sim, disse-lhe. E ela quis saber se eu gostaria de pimenta forte ou de uma mais suave. Forte! Para mim pimenta tem de ser forte, ou não é pimenta. Qual você tem? indaguei. E ela me informou que tinha duas. Uma é aquela que enrosca, me esclareceu confundindo, como se seguisse a lição de Tom Zé*. Disse-lhe em tom – sem trocadilho –  de pergunta: Pimenta-do-reino? Mas ela respondeu que não sabia, porque não gosta de pimenta.

Enquanto ela ia lá dentro pegar as pimentas, tentei com Jane descobrir que diabos seria a tal pimenta que enrosca. Vem ela com uma pimenta norte-americana, em vidrinho, abundantemente encontrada em mercados, e um moedor de pimenta-do-reino. Esta última é a tal pimenta que enrosca.

Sentiram os amigos leitores a que nível chega a especialidade da garçonete?

E isto me fez lembrar de um outro especialista. Lá por volta de 1970/71, quando li a notícia do lançamento do disco Atom heart mother do Pink Floyd, fui imediatamente à loja Sabiá Discos, que não mais existe e que era uma das melhores de Niterói à época, procurar a dita bolacha. Pedi ao atendente especialista: Por favor, você tem aí o novo disco do Pink Floyd? Ele me pediu que lhe dissesse novamente o nome, que repetiu em voz baixa, tentando ligar nome à pessoa: Pink Floyd, Pink Floyd. Acho que não tem! Contudo, para não deixar o cliente mal servido, virou-se para o gerente e indagou: Aí, tem o disco desse tal de Pink Floyd? Tem, respondeu o outro; é aquele das vaquinhas holandesas. Ah! sei! E foi lá na banca, pegou o disco – um elepê é um objeto grande, visível à distância – e me entregou. Comprei o disco e resolvi nunca mais comprar ali. Só por birra com o tal “especialista”.

E também há aquela história – aí já uma piada – do cara que chega à peixaria e pergunta ao peixeiro – especialista em frutos do mar – se o camarão era fresco. O peixeiro dá uma olhada nos crustáceos expostos sobre cama de gelo picado e candidamente responde: Não, é o jeitão dele mesmo!

 

Imagem em pimentasartesanais.com.br.

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Para ouvir a música de Tom Zé, em que ele explica o que quer confundir, ou muito pelo contrário, clique aqui.

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