A CRISE GREGA

(Ao amigo Zatonio Lahud Neto, que não aguenta mais ouvir falar na crise grega.)

A crise grega está deixando meus parcos cabelos alvoroçados. Nunca estive na Grécia, mas tenho a maior simpatia pela cultura e pela história que moldaram a chamada Civilização Ocidental. Quero dizer de antemão que não cuspo no prato em que como. Não tenho vergonha de ser ocidental e um tanto civilizado à moda grega, romana, portuguesa, africana e índia. Minhas raízes, neste aspecto, são mais profundas que raízes da nobre mandioca. Nem mesmo da tal Civilização Cristã, embora hoje seja materialista e à toa, me causa engulhos. Somos o que somos. Não nasci em outra parte do mundo, nem sob outra cultura. Procuro, apenas, não ser mais um canalha na face da Terra.

Mas, como eu ia dizendo, estou deveras preocupado com a situação grega, que chegou a tal ponto, que talvez só permita ao país obter empréstimo na Crefisa, que, segundo sei pela propaganda, é a única entidade com fins lucrativos que empresta para negativados. E a Grécia já passou de negativada: já está com o nome no SERASA europeu.

E de quem é a culpa pela situação helênica (Viram como mudei o adjetivo para mostrar cultura?)? Trago aqui, na tentativa de entender quase tudo, mesmo que não entenda nada, parte da história.

Há milhares de anos atrás, conta o poeta, Esparta, cidade belicosa de uma Grécia constituída por cidades-estado, empreendeu uma guerra contra Troia, cidade da Ásia Menor, situada à entrada do Mar de Mármara, sobre o estreito de Dardanelos.

A História, com H maiúsculo, especula, contudo, outra versão. A posição estratégica sobre o estreito deu a Troia o controle de entrada e saída de todos os navios para as cidades no interior deste mar e do Mar Negro, contíguo. O governo troiano tirava boa parte de seus recursos da cobrança de uma espécie de pedágio de cada embarcação que por ali navegasse. A situação ficou insustentável para Esparta, uma potência marítima à época, e demais cidades gregas, quando Troia resolveu aumentar de forma exorbitante o valor cobrado. Aí se deu a famosa Guerra de Troia. Contudo esta história não mereceria um poema inteiro de Homero, tão prosaica que era a motivação do conflito. Então se criou a lenda do rapto de Helena, considerada a mulher mais bela de então, e a busca desesperada do marido, Menelau, que só a recuperou depois de destruir a cidade inimiga.

Para que se conseguisse a derrota definitiva de Troia, o espírito grego engendrou o tal Cavalo de Troia, um engodo grosseiro, em que os asiáticos caíram feito patos. A Grécia, então, passou a ter o controle total sobre todas as águas marinhas de sua costa e adjacências.

Pelo que se sabe, a tal guerra durou dez anos. Helena, ao ser recambiada para casa, já era dez anos mais velha. Não sei bem se já seria a mais bela humana da época. Vamos continuar supondo que sim, porque, se não, imaginem a frustração de Menelau, quando ela reentrasse no sacrossanto recesso do lar feito um chupe-chupe de laranja. Porque Páris, o ladrão de mulher alheia, não a raptou para que ela lhe lavasse as roupas ou lhe cozinhasse a skordalia. O pau deve ter quebrado nesses dez anos, entre os “lençóis macios, amantes se dão, travesseiros soltos, roupas pelo chão”.

Pois agora – voltando à situação egípcia em que a Grécia se meteu – o Cavalo de Troia que lhe puseram diante foi enviado pela comunidade econômica internacional, que não tem uma cara visível, nem risível, e cobra seus pedágios mais fortemente que Troia. A Grécia não tem mais a valentia dos aqueus que venceram a cidade da Ásia Menor, embora lute com todas as retóricas que criou há milênios, para que o bucho do cavalo não se abra e de lá saiam algumas dezenas de banqueiros com as letras de câmbio vencidas, querendo recebê-las até mesmo sobre o sangue do povo grego.

Parece, contudo, que chegaram a um acordo que pode manter Mikonos e Santorini, com suas casas de uma alvura exemplar, na rota dos navios de cruzeiros, e o povo grego, criador da Tragédia, possa superar seu pathos e atingir a katharsis dentro do prazo mais breve possível. Como na ação da tragédia clássica.

 

Helena de Troia, por Evelyn Morgan, 1898 (em pt.wikipedia.org.).

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