A CRISE GREGA (II)

Para o amigo Renato Beranger.

Quero esclarecer de público e blog que só estou indo para o segundo turno desta crise grega por total imposição dos meus leitores. Para ser sincero, apenas o Renato Beranger manifestou isso em simpático comentário ao texto anterior. Mas, como estou na qualidade de aposentado quase inerte – apenas os cuidados com o Francisco me fazem bulir um pouco o esqueleto -, me dei este trabalho, a fim de que não pareça pretensioso.

A crise grega vem de muitos e muitos anos. Para dizer a verdade, tenho a impressão que desde que os dórios invadiram o território, destruíram o que já tinha sido feito pelos aqueus e jônios, mergulhando a Grécia naquilo que se chama, nos estudos históricos, de Idade Média da Grécia Clássica. Derrubaram cidades e monumentos, acabaram com boa parte da cultura, tanto que a escrita desapareceu, só voltando mais tarde. Pareciam o Estado Islâmico avant la lettre.

Contudo, tanto aqueus, quanto jônios e dórios, todos eles eram povos helênicos e já falavam, cada um a seu modo, aquela língua complicada, que, vamos combinar, é uma língua incompreensível, tanto para gregos quanto para troianos.

Alguns dos cidadãos que não se dirigiam para a guerra e não trabalhavam a terra, plantando oliveira e uva, trigo e centeio, se deram ao trabalho de inventar a Filosofia, o Teatro e uma das mitologias mais complicadas de que se tem notícia, com uma infinidade de deuses, semideuses e heróis para todas as finalidades da vida prática, e todos eles cheios de nós pelas costas, dados a comportamentos os mais humanos possíveis. É claro que isto, um dia, não iria acabar bem.

Por exemplo, para a agricultura, havia um deus que presidia o trabalho de aragem e preparo da terra; um, para a semeadura; um, para o cuidado com a plantação; outro, para a colheita; mais um, para a feitura do pão; outro mais, para o vinho. E por aí afora. E, quando não estavam em guerra uns com os outros, os gregos rezavam, oravam, lá o que seja, o tempo todo. Cada casa tinha seu deus protetor, para o qual se erguia um pequeno altar doméstico. O deus de um vizinho poderia não ser o mesmo do cara ao lado. Vejam que isso também era um complicador.

No caso do Teatro, por exemplo, os gregos inventaram a Tragédia e não eram lá muito bons em Comédia.

Os romanos, que são tidos como gregos decaídos, imitadores da cultura helênica, etc., pelo menos tiveram mais preocupações com a Comédia e a Sátira. E só rezavam para os deuses, se a colheita fosse boa e eles pudessem tomar um pifão de vinho ao final da safra. Caso contrário, saíam a conquistar outros povos e espalhar a pax romana a ferro e fogo, doesse ao bárbaro que doesse. E isso deu muito certo por centenas de anos. Tanto é que existem várias línguas derivadas da língua de Roma e nenhuma que tenha vindo da língua grega. Só eles lá que tentam se entender daquele jeito.

Mas, voltando à Hélade, vi há pouco na tevê que os problemas gregos se disseminaram de tal forma no meio social, que os cidadãos já estão tentando resolvê-los na base do sopapo e do pescoção. Pode ser que rapidamente, assim, cheguem a um consenso, já que esta é uma forma de linguagem muito mais acessível ao ser humano, seja ele grego, troiano, romano ou alemão.

 

Cartum de Lucas (em lucaslima.com).

2 comentários sobre “A CRISE GREGA (II)

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